Iranianos se casam outra vez depois de 41 anos
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quarta-feira, 04 de março de 1998
Célia Baroni 
Milton DóriaPode beijar a noivaRuhollah Soltani e Aghdas Mehdizadeh, casados pela primeira vez em 57 e pela segunda no último sábadoO amor verdadeiro é para sempre? Pelo menos no caso de iranianos Ruhollah Soltani, 66 anos, e Aghdas Mehdizadeh, 58, parece que sim. Depois de 20 anos de separação e 41 anos do primeiro matrimônio entre ambos, eles decidiram se casar de novo. E garantem que agora é para sempre. A cerimônia religiosa e civil aconteceu no último sábado à noite, e reuniu amigos do casal e membros da comunidade Baháí de Londrina.
Amor? Ruhollah Soltani, profissional autônomo, afirma que sim e diz que o olhar não mente. Foi preciso muito tempo e vivência para eu descobrir que nunca conseguiria amar outra mulher com a intensidade e sinceridade que dedico a Aghdas, afirma ele. A noiva brinca: Depois de tanta experiência...
Eles se casaram pela primeira vez no Irã, em 1957. Ela tinha 18 anos; ele, 25. Na cultura persa, os pais tomam a iniciativa de apresentar os filhos e incentivar o namoro. Três meses depois eles estavam casados. Eu me apaixonei por ele e o amei muito, afirma Aghdas Mehdizadeh, enfatizando que não houve pressão dos pais. Não casei antes porque não tinha encontrado a mulher certa. Quando conheci Aghdas, me apaixonei pela sua integridade e força interior. Ela era muito bonita, comenta Soltani.
Eles contam que a separação foi consensual. Na época, relembram, ela e os filhos (dois meninos e uma menina) tiveram de se mudar para a Índia e o marido precisava ficar indo e voltando do Irã. As viagens impostas pelo trabalho de Soltani acabaram prejudicando o casamento. Aghdas Mehdizadeh - que já dedicava parte de seu tempo a divulgar a fé Baháí - intensificou suas atividades. Seguindo o caminho como instrutora, alguns anos depois ela se mudou para o Canadá com os filhos, para levar os ensinamentos do mestre Baháulláh a índios daquele país.
Pouco tempo depois da separação, ainda no Irã, Soltani se casou com outra mulher, com quem permaneceu por nove anos. Desta união não nasceram filhos. Foi lá que Soltani a reencontrou Aghdas e pediu que voltasse a se casar com ele.
Mas o que acabou unindo os dois novamente foi uma tragédia. A única filha de Soltani e Aghdas Mehdizadeh, de 30 anos, que também se dedicava à divulgação da fé Baháí, morreu em uma aldeia da Rússia. Ela começou a apresentar sintomas de apendicite, foi socorrida, mas o hospital mais próximo ficava distante vários dias de viagem da aldeia. Ela não resistiu à infecção. Os filhos nunca pressionaram, mas sempre quiseram que a gente voltasse. Minha filha era a mais insistente, explica Aghdas.
Apesar do amor que levou à reconciliação, a decisão de voltar a casar não foi tão simples como pode parecer. O namoro demorou 11 anos. A primeira vez em que Soltani pediu para Aghdas voltar foi em 87. Se para Soltani a volta tem ar de paixão eterna, para Aghdas é sinal de muito amor mas, principalmente, de maturidade. Na primeira vez eu disse não. Achei que não poderia ser feliz com ele novamente. Hoje a situação mudou. A vida me mostrou que a gente deve saber reconhecer o caminho certo e perdoar, sempre que necessário.
No último sábado, diante das testemunhas e da assembléia espiritual Baháí, eles ouviram uma epístola sobre o casamento e pronunciaram a frase - Verdadeiramente nós anuiremos à vontade de Deus - que confirma o desejo e o compromisso com a união. Os filhos e netos moram nos Estados Unidos e não puderam participar da cerimônia.
Por enquanto, o casal vai continuar morando em Londrina. Aghdas Mehdizadeh pretende seguir trabalhando como instrutora. E Soltani garante que desta vez vai acompanhá-la.


