O advogado Carlos Airton Costa acusou ontem o procurador da República em Cascavel, Celso Antônio Três, de cometer uma ‘‘sacanagem jurídica admitida por ele próprio’’ para incriminar o investigador de polícia Gilberto Ardanaz, 40 anos. Carlos Costa defende Ardanaz de acusação feita pelo promotor federal por envolvimento no golpe conhecido como ‘‘3x1’’. Segundo o advogado, Três ‘‘suprimiu’’ do inquérito, feito pela Polícia Federal (PF), peças que fariam com que o caso deixasse a esfera federal para se constituir em assunto para o Ministério Público e polícia estaduais.
O advogado exibiu transcrição e cópias de uma fita, gravada sem que o procurador soubesse por um repórter policial (André Rocha, do jornal local ‘‘A Cidade’’), no qual os dois falam informalmente sobre o caso ‘‘3x1’’. Na fita, que foi cedida a Gilberto Ardanaz, Celso Três admite que cometeu ‘‘uma pequena sacanagem jurídica’’. Para Carlos Costa, isso significou não anexar ao inquérito cédulas de imitação (ou de ‘‘brinquedo) que teriam sido utilizadas no ‘‘3x1’’ (troca de notas falsas ou de imitação por verdadeiras, na proporção de três falsas para cada uma verdadeira).
A promotoria federal tem competência para casos de moeda falsa. A utilização de notas de imitação (como as de casas de jogo para simular apostas) no golpe configuraria estelionato, assunto que seria apurado na esfera estadual. Por isso, o advogado anunciou que representará contra Três na Corregedoria da Justiça Federal, além de mover-lhe queixa-crime por injúria, calúnia e difamação contra seu cliente, porque o estaria acusando publicamente, sem haver ainda qualquer condenação.
O golpe ‘‘3x1’’ também tem como envolvido - segundo o promotor federal - o investigador Paulo Cézar Vieira, 33 anos. Três disse que deixou de incluir nos autos cédulas apreendidas com tarja identificando-as como não sendo verdadeiras, porque sabia que advogados dos policiais poderiam tentar tirar o caso de sua alçada. Ao transferi-lo para a esfera estadual, a investigação seria feita por policiais civis, ‘‘portanto, colegas dos próprios acusados’’. Três acrescenta que, além das imitações, há comprovação de dinheiro falso no golpe, mas preferiu se limitar aos depoimentos de vítimas e outros elementos de prova.
‘‘Não omiti nada, apenas não levei para o processo coisas da competência da Justiça estadual, que, se quiser, pode tomar a iniciativa de agir’’, afirmou. O procurador disse que as investigações foram iniciadas no ano passado quando obteve depoimentos de vítimas procuradas por desconhecidos que diziam terem conseguido dinheiro em ‘‘duplicata’’ na Casa da Moeda, que precisariam espalhar em quantidades menores para não levantar suspeitas.
‘‘Ávidos e gananciosos caem facilmente neste tipo de golpe’’, explica Três. Segundo ele, os investigadores Ardanaz e Vieira davam cobertura aos golpistas, que atuavam geralmente em ambientes refinados. Duas pessoas disseram terem entregue R$ 40 mil cada uma, e em troca receberam notas falsificadas ou de imitação encobertas por falsificadas. Segundo o procurador, da quadrilha fazem parte Nilson Falcão, seu irmão Nilton Falcão, e os também irmãos César e Silvio Mazuco, todos com paradeiro desconhecido.
Os investigadores abordariam vítimas no local do golpe, dizendo que dariam um ‘‘flagrante’’ em todos os presentes, e que elas tinham a opção de abandonar o local e deixar o dinheiro (o falso e o verdadeiro), ‘‘o que invariavelmente ocorria’’, segundo o procurador. Três também recebeu cópia de um contrato, do qual Ardanaz foi avalista, de locação de uma casa onde se hospedavam membros da quadrilha. O promotor relata a existência dos delitos de formação de quadrilha, estelionato, moeda falsa, corrupção passiva, ameaça e lesão corporal. Ardanaz e Vieira negam qualquer envolvimento e dizem não conhecer os membros da quadrilha nem as vítimas.
Ardanaz diz que avalizou o contrato como ‘‘favor’’ para uma pessoa que havia conhecido ‘‘há alguns anos’’. Ele e Vieira se dizem perseguidos pelo procurador, que já os havia denunciado por extorsão a sacoleiros, caso ainda investigado. O procurador lembrou ontem que uma vítima do golpe ‘‘3x1’’, lesada em R$ 100 mil, o empresário Luiz Cancelli, 31 anos, foi morto a tiros em setembro do ano passado. O crime foi atribuído a um menor que depois negou tudo, após investigação comandada por Ardanaz.

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