Curitiba - A dificuldade em combater os roubos em algumas cidades do Litoral do Paraná pode estar na inversão das funções dos agentes de segurança. É comum hoje, nessas localidades, encontrar policiais civis cuidando de presos, policiais militares investigando crimes e guardas municipais realizando o trabalho ostensivo. Em todo o Litoral, do primeiro para o segundo quadrimestre, houve um aumento de 33% nos registros de roubos.
A inversão de papéis não é a única característica que está chamando a atenção das localidades litorâneas paranaenses quando o assunto é segurança. Em Matinhos e Paranaguá, as guardas municipais já contam com um efetivo maior do que as polícias locais. O quadro de Matinhos é de 36 policiais militares se revezando em turnos diários com grupos de quatro pessoas, enquanto que o número de guardas municipais sobe para 65. As outras cidades ainda não contam com com essa corporação municipal.
''Aqui a Polícia Militar trabalha com quatro policiais na cidade inteira por turno. A Polícia Civil faz mais o trabalho de cuidar dos presos, mas é a PM que investiga mais. Para a gente, sobra a repressão'', explica o diretor da Guarda Municipal (GM), de Matinhos, Gilmar Alves Rolim.
Necessidade motivada pela criminalidade e falta de efetivo da polícia são os dois motivos para guardas municipais estarem ocupando o espaço do trabalho repressivo. Entretanto, estar presente e utilizar apenas um cacetete sem o treinamento específico para o trabalho pode gerar ainda mais problemas.
Questionado sobre um possível flagrante, Alves tem a resposta. ''Faça de conta que não viu, chame a polícia e espere. Mas até chegar o apoio, o marginal já evadiu''.
A última divulgação do Geoprocessamento Mapa do Crime da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) apontou que o número de roubos nas localidades à beira-mar subiu de 72 (entre janeiro a abril de 2009) para 96 (entre maio e agosto). No mesmo período, a estatística ainda demonstra uma queda nos homicídios dolosos de 22 para 20.
Quando os números são analisados ano a ano há uma queda: de 2007 para 2008 de 365 roubos para 312. Nesse período, por sua vez, os homicídios dolosos aumentaram de 66 para 97.
O diretor da GM de Paranaguá, Alessandro Almindo Lacerda, também garante que tem atuado de forma diferente do que deveria. ''Fazemos o serviço de polícia mesmo. Ninguém quer ver a Guarda Municipal como polícia, mas acabamos fazendo o mesmo serviço'', enfatiza.
O delegado-chefe da 1 Subdivisão Policial, que abrange todas as delegacias do Litoral, Valmir Soccio, diz que o efetivo é pouco mesmo e confirma o problema, embora não divulgue o número de policiais civis no Litoral. ''A Polícia Civil tenta investigar, mas tem certa dificuldade''.
Soccio acredita que, em breve, o novo concurso autorizado pelo governador Roberto Requião ajudará a melhorar o quadro de policiais na região. Para ele, o trabalho desenvolvido pelas guardas tem colaborado com a proteção da população.
O coordenador estadual do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), procurador Leonir Battisti, vê com bons olhos o crescimento da força da GM nas cidades. ''Nós temos um desequilíbrio geral. As polícias civil e militar acabam sendo insuficientes e acontece essa distorção. A situação revela uma dificuldade de organização. O lado positivo é que os municípios não estão parados. Sabemos que boa parte dos crimes acontecem por falta de ostensividade, de presença'', explica o procurador.
Embora afirme que fazer o trabalho policial é um risco para a guarda, por não estar preparada, Battisti acredita que é inevitável e que, se mantiverem uma atuação mais preventiva, não há ilegalidade. ''O que temos de fazer é apenas coibir excessos, mas o trabalho em colaboração é benéfico''.
A reportagem da FOLHA procurou o comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar, major Flávio José Corrêa, mas ele não retornou as ligações. Os representantes de cada unidade policial das cidades citadas também foram procurados mas preferiram não comentar o assunto. (Colaborou Marcela Rocha Mendes)

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