Sol de brigadeiro, temperatura de 25 graus, calor de suar a descrição é típica de uma tarde de verão, mas na verdade faz referência às últimas semanas de inverno em Londrina. Uma realidade bastante diferente do clima da cidade nesta época do ano em outras temporadas, quando o frio intenso dava as cartas.
Segundo o meteorologista Marcelo Brauer, do Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar), o inverno atípico é resultado de um outono de altas temperaturas, o mais quente no Estado do Paraná desde 1980. ''Esta elevação foi resultado de um grande aquecimento das águas do Oceano Pacífico e do Atlântico Sul, na costa do Chile e no litoral de Santa Catarina e do próprio Paraná'', explica Brauer. Assim, nos meses do inverno no Hemisfério Sul, massas de ar quente estacionaram sobre o Estado e não permitiram grandes avanços das frentes frias.
Segundo dados do Simepar, em agosto (até o dia 19) Londrina teve apenas quatro dias em que a temperatura ficou abaixo dos 12 graus. Em julho, foram 17 dias, o que completa 21 dias considerados frios nos dois meses. O normal fica em torno dos 25 dias para este período. ''A diferença não é tão grande, o que permite dizer que este inverno foi até normal. Atípico foi a estação em 2000, quando a cidade atravessou muitos dias frios e seguidos'', diz Brauer, que completa: ''Este inverno está parecido com o do ano passado, só que em 2002 os dias quentes estão muito mais quentes''.
O engenheiro agrônomo José Gomes, que trabalha com climatologia, afirma que está havendo exagero nas reclamações e no estranhamento por causa do clima. ''Vivemos numa zona de transição, entre uma área temperada e uma tropical. É absolutamente normal que Londrina esteja sujeita a alterações climáticas deste tipo'', defende o especialista.
Alheios aos preciosismos terminológicos dos meteorologistas, lojistas de diferentes setores estão sentindo na pele algo mais além de calor devido às alterações no clima. Uns comemoram: Rosemeire Luciana Pereira, que trabalha há dez anos como vendedora de sorvete num quiosque no Calçadão, contabiliza o crescimento nas vendas. ''Está sendo a melhor temporada nesta época em muitos anos. Pra mim, inverno podia ser assim todo ano. E durar o ano inteiro'', diz a comerciante.
Outros lamentam: Aureni Oliveira Silva, gerente de vendas de uma loja de roupas a poucos metros do quiosque de Rosemeire, não tem muita coisa a comemorar neste inverno. ''Fazemos o planejamento para aqueles dois meses de frio, mas este ano não teve inverno. Todos os lojistas tiveram problemas, porque estocaram roupas para a estação'', explica Aureni.
A solução foi tirar dos estoques os itens mais leves, ideais para o tempo quente, mas a lojista explica que a tática não foi suficiente para reverter o estrago. ''As pessoas também não estão comprando como se fosse verão'', lamenta Aureni, que reconhece: ''O prejuízo vai ser grande''.

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