Invasões mudam perfil de Querência
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de novembro de 1998
Lucinéia Parra 
Nos municípios vizinhos de Querência do Norte, a presença dos trabalhadores sem terra divide opiniões. Muitos comerciantes se mostram favoráveis ao MST já que o interesse maior é a volta da população que nos últimos anos abandonou os municípios por falta de emprego. Mais moradores, significa mais consumidores. Por outro lado, representantes da comunidade criticam a ação dos trabalhadores, principalmente quando há abuso nas invasões. No meio do conflito estão as autoridades policiais e judiciais. Mas todos concordam que a região já está ficando conhecida como terra dos sem-terra.
Em São Pedro do Paraná, o delegado, João Aparecido Fardim que ocupa o cargo há três anos e seis meses evita falar sobre a ação dos sem-terra, mas deixou escapar o seguinte comentário: Falar de sem-terra, é complicação na certa. Eles só trazem dor de cabeça. Fardim é um delegado calça-curta (que não é de carreira). Ele iniciou o inquérito que apura os saques à fazenda São José, mas acabou transferindo o processo para a delegacia de Loanda. Lá é comarca, tem delegado e escrivão de carreira e por isso terá mais condições de fazer as investigações, explicou.
Em outra delegacia da região, um escrivão declarou à Folha, que as autoridades policiais e judiciais estão sem autoridade. Ninguém faz mais nada contra os sem-terra porque ninguém entra nos acampamentos deles. O episódio da Fazenda Saudade, quando os policiais compareceram na área para dar segurança e garantir a reintegração de posse, mas depois acabaram sendo obrigados a deixar a área, foi constrangedor. Os policiais deveriam ter autoridade para entrar nos acampamentos, mas a orientação não é essa, então...., disse.
De acordo com este escrivão, os municípios da região tornaram-se, efetivamente, alvo preferido dos sem-terra. A gente não pode fazer nada porque tem muita gente que acha que o problema dos sem-terra é um problema social. Segundo ele, os trabalhadores literalmente se acham donos das áreas invadidas. Os dois tratores roubados da fazenda São José não foram apreendidos ainda porque os sem-terra se organizam e não deixam ninguém entrar nos acampamentos.
Para o comandante do 8º Batalhão da Polícia Militar de Paranavaí, Gilberto Kummer, os sem-terra são muito organizados e definem as invasões de forma estratégica. Ele não tem dúvida de que os tratores roubados da fazenda São José estão com os sem-terra.O difícil agora é localizar os tratores e os sem-terra envolvidos porque eles (sem-terra) são espertos e ficam andando de um acampamento para o outro, dificultando o trabalho da polícia, disse.
Conforme o comandante, a coordenação do MST de Querência do Norte está atraindo os brasiguaios para a região por falta de trabalhadores locais que aceitem as determinações do movimento. Atribuo os furtos e vandalismo cometidos na fazenda São José ao MST de Querência do Norte. Eles estão usando os brasiguaios e as famílias que estavam nos acampamentos da região Oeste para praticar roubos aqui na região.


