O município de Querência do Norte, base do MST no Noroeste do Paraná, concentra cerca de 30% das propriedades invadidas pelos sem-terra no Estado e sofreu uma profunda transformação desde as primeiras ocupações, há 11 anos. A população cresceu de 9,6 mil habitantes para os atuais 15 mil, e as grandes propriedades vão sendo fracionadas. Segundo dados da prefeitura, até 988, quando chegaram os primeiros sem-terra, 80% das propriedades eram consideradas ‘‘grandes’’, com mais de 100 alqueires. Hoje 50% podem ser consideradas fazendas.
A economia do município, da produção agrícola até a arrecadação da prefeitura, não acompanhou o crescimento da população e do número de propriedades. A produção de arroz, principal cultura no município, caiu de uma média de 500 mil sacas por safra para 100 mil no ano passado. Reflexo do crescimento nos conflitos entre sem-terra e proprietários. A expectativa para a safra que está sendo colhida é de uma melhora significativa, e deve ficar em 300 mil sacas. ‘‘Um pouco já é reflexo das áreas de assentamento, que começam a produzir’’, diz Edson Andreassi, assessor da prefeitura.
Arquivo FolhaTransformaçãoManifestação de sem-terra no início da década de 90: cidade passou por mudanças drásticasEle lembra que a maior parte do arroz cultivado em Querência do Norte, até o crescimento das invasões, ficava nas mãos de arrendatários. ‘‘Hoje falta uma política para incentivar os assentados a produzir com tecnologia’’, acredita. Andreassi explica que alguns ex-sem-terra que hoje têm propriedade conseguem boa produtividade, mas a maioria ainda depende do clima. ‘‘Precisamos de dois ou três anos para voltar ao que éramos antes’’, calcula.
Enquanto isso, a prefeitura amarga um aumento de despesas com mais gente para atender, e a queda na arrecadação. As áreas mais afetadas são a educação e saúde. Andreassi diz acreditar que os sem-terra vão melhorar a economia de Querência do Norte. ‘‘Nas áreas de assentamento, onde havia duas famílias cuidando do gado, hoje estão 50 ou até 80 famílias plantando.’’
Arquivo FolhaQuerência do Norte: mais gente e menor arrecadaçãoOs sem-terra incentivaram também o crescimento do comércio de Querência do Norte, que hoje amarga a falta de consumidores. ‘‘Assim como todo mundo, os sem-terra não têm dinheiro’’, diz a empresária Rosalina Rodrigues dos Santos, presidente da Associação Comercial e Industrial de Querência do Norte. Ela também acha que a longo prazo os assentamentos vão mudar a economia da cidade. ‘‘Mas por enquanto não podemos falar que Querência cresceu com o MST.’’
A dirigente empresarial compara que pelo número de famílias que chegaram na cidade nos últimos 11 anos, e pela área destinada a assentamentos, a economia local deveria estar mais ‘‘aquecida’’. Em contrapartida, ela compara, os sem-terra mexeram com a estrutura social do município, e a população toda sente os efeitos. ‘‘Mas precisamos acreditar que vá melhorar algum dia.’’

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