Embora descritos com frequência como o mais confiável dos investimentos, imóveis podem se tornar uma grande dor de cabeça para quem precisa passá-los adiante. A ocupação de terrenos realizada por 16 famílias no Conjunto Vivi Xavier (zona norte), na semana passada, chamou a atenção para as dificuldades que moradores e imobiliaristas de Londrina vêm enfrentando com a desvalorização de imóveis localizados nas proximidades de favelas, assentamentos há pouco considerados bairros e invasões. Em alguns casos, os preços chegam a cair até mais de 30%, ou os proprietários simplesmente desistem da venda.
A assistente social Josiane Azevedo conta que seu pai demorou três anos para vender uma casa no Conjunto Semíramis Braga, na Zona Norte. O imóvel valia R$ 40 mil, e após meses e meses de negociações frustradas, a família preferiu repassar a casa por R$ 25 mil. ''Meu pai cansou de esperar'', diagnostica Josiane. O motivo da desvalorização: uma invasão que existe há sete anos nas últimas ruas do bairro.
''Quem vai comprar o imóvel acha que quem mora em invasão é traficante, bandido, há muito preconceito. No nosso caso, o pessoal que mora aí nunca me proporcionou problemas. É gente que não tem para onde ir, uma questão social'', diz Josiane. Ela mesma está tentando há um ano e meio vender sua casa. O preço inicial sugerido era de R$ 20 mil. Já baixou para R$ 18 mil. Até agora, a proposta mais alta foi de R$ 12 mil.
Nos jardins Viena e Marieta, também na Zona Norte, é difícil encontrar uma rua que não tenha pelo menos uma casa com placa de ''vende-se''. Há dois anos, o bairro tem uma invasão, conhecida como Favela Marieta, que vem prejudicando o comércio de imóveis na região. A dona de casa Maria (pseudônimo os moradores temem represálias dos habitantes da favela) tentou por quase um ano vender sua casa de quatro cômodos. Há poucas semanas, desistiu.
''Tentei vender por R$ 3 mil, anunciei no rádio, mas ninguém quer saber de se mudar pra cá. O problema da favela não é as pessoas que moram aí, mas os que vêm se esconder no local. Já vi gente usando drogas, soube de atos violentos. Isso tudo espanta comprador'', explica. Pouco antes de ser entrevistado pela Folha, o autônomo Vanderlei (também pseudônimo) ligou para a imobiliária para informar que estava aceitando R$ 30 mil na venda de sua casa. Antes, pedia R$ 5 mil a mais.
''As pessoas da favela são carentes e têm suas necessidades, é preciso dar um jeito nisso. Estamos sendo prejudicados. Se fosse em qualquer outro bairro, sem invasão, conseguiria fácil, fácil vender a casa por uns R$ 40 mil'', lamenta ele. Ao menos, Vanderlei (ainda) não está pedindo pela sua casa um valor inferior ao que gastou nela.
O movimentador de cargas Leonardo (outro pseudônimo), morador do Jardim Leonor (Zona Oeste), não tem a mesma sorte. Ele calcula que gastou R$ 20 mil para adquirir e montar sua casa. Agora, vende a residência para quem oferecer R$ 15 mil. Seu drama é que a casa fica localizada nos fundos das favelas Pantanal e Bratac, uma das áreas mais violentas de Londrina.
''Fico no meio de tudo, à noite ouço os tiroteios. E os bandidos passam pela minha rua todos os dias. Pedi de cara um valor mais baixo porque sabia que as dificuldades pra vender seriam grandes'', explica Leonardo. E como ficou difícil: num período de seis meses, foram apenas três propostas. A mais alta? R$ 13 mil.
As ruas do Leonor e do Jardim Santiago à beira das duas favelas parecem fantasmas, tamanha a quantidade de casas fechadas e com placas de venda. No quarteirão onde Leonardo mora, há um imóvel de portas cerradas há cerca de um ano, onde antes funcionava uma igreja. ''Não conseguem vender'', diz.

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