‘‘Falam tanto da Etiópia... Nós temos uma Etiópia brasileira. Está nos olhos de todos mas ninguém faz nada.’’ A Etiópia londrinense é formada por favelas, às margens de áreas já urbanizadas, em várias regiões da Cidade. O autor da comparação das favelas com a nação africana, mundialmente conhecida pela fome e miséria de sua população, é o presidente da Federação das Associações de Moradores de Favelas de Londrina, José Ricardo da Silva.
Hoje, em Londrina, cerca de mil famílias moram em favelas: 600 ocupam cinco áreas irregulares, invadidas nos últimos quatro anos; outras 400 moram em seis favelas mais antigas à espera de providências do Poder Público. Nesses bolsões de miséria, não faltam barracos cobertos de plástico; iluminação a vela ou querosene; poeira ou lama em vez do asfalto. Desemprego é outro fator já incorporado à vida da maioria desses moradores.
Há seis meses, o lavrador desempregado Francisco de Assis Rodrigues mora em um barraco no fundo de vale do conjunto Aquiles Stenghel (zona norte). Ele tem 66 anos e veio do Ceará há quatro. Mora com a esposa, dona Francisca, e quatro filhos. Apenas um trabalha para sustentar a casa.
Antes de ir para o barraco, Francisco e a família moravam nos fundos da casa de outra filha e do genro. ‘‘Mas lá estava pequeno para todos. Éramos em 12’’, conta. O fato de a área invadida ser um fundo de vale não incomoda a família Rodrigues. ‘‘Se a Prefeitura tirar a gente daqui, tem a obrigação de dar uma casa pronta em outro lugar. Aqui era só mata e lixo’’, comenta dona Francisca.
Ademir Marques Duarte, que trabalha em uma indústria, trocou o aluguel de R$ 100,00 de uma casa no jardim Santa Luzia por um pedaço de terra também no fundo do vale. Ele contratou serviços de pedreiro para construir a casa de alvenaria, onde mora com mais cinco pessoas. ‘‘Agora só precisamos de luz e água encanada. Se a Cohab tirar a gente tem que arrumar um outro canto’’.
Em frente ao fundo do vale, uma outra invasão está irregular no Aquiles: 109 famílias ocupam desde julho deste ano área da Prefeitura destinada a uma praça pública. Incluindo a praça e o vale, são 280 famílias. Um dos moradores, o presidente da Associação dos Moradores da vila Campos (como eles denominam a comunidade), Rogério de Oliveira, conhecido como Tarzan, afirma que a Prefeitura já liberou os lotes para a construção das casas. Animados, muitos já concluíram suas residências de alvenaria.
Na sala da presidência da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), Wilson Sella explica que naquela região não há nada liberado para os moradores. ‘‘São terrenos públicos que não podem ser ocupados, e o local é inadequado para habitação. Não se pode morar num fundo de vale. Acreditamos na qualidade de vida futura.’’ Com relação às casas já prontas, Sella informa que em um remanejamento para outra área os moradores perdem o que construíram. ‘‘Isso aconteceu nas favelas que foram urbanizadas, como Marabá, Rosa Branca, vila Ricardo e em todas as outras’’.
Mesmo numa situação irregular, dificilmente esses moradores serão despejados pela Prefeitura sem que haja uma área alternativa para onde possam ser transferidos. É essa a prática observada na administração atual. Embora a Procuradoria Jurídica da Prefeitura tenha pedido na Justiça a reintegração de posse de seus terrenos no Aquiles Stenghel, o desenrolar do processo mostra que ninguém vai deixar os sem-teto em condição ainda mais difícil. Antes de tomar qualquer decisão, a Justiça consultou a Cohab sobre a existência de um terreno para transferência das famílias. A resposta foi negativa. A Justiça até agora não se pronunciou.
Qualquer tentativa de despejo vai encontrar resistência. Os moradores das favelas estão organizados em associações e em uma federação, que existe há 18 anos. ‘‘Se a Cohab quiser tomar os terrenos, vamos nos mobilizar, pedir apoio de outros movimentos populares. Não fomos nós que fizemos a nova Constituição, que diz que todo cidadão tem direito a dois cômodos e um banheiro para morar’’, diz José Ricardo da Silva, presidente da Federação dos Moradores de Favelas.
Segundo ele, a Federação não tem como objetivo promover invasões de terrenos. ‘‘Queremos negociar loteamento popular para que as pessoas carentes tenham condições de pagar. Pais de família se atrevem a levar seus filhos para debaixo da ponte ou da lona porque não têm emprego ou recebem salário mínimo, que não dá para sustentar a casa.’’
As invasões - de acordo com José Ricardo - ocorrem de forma desorganizada. ‘‘A invasão urbana acontece quando se acha um louco que tem coragem de fazer uma barraca numa área vazia. Aí começa a invasão. No dia seguinte, 30 famílias ocupam o mesmo local. O número de barracos cresce todos os dias’’.
Nas ocupações mais recentes, os moradores são mais jovens: filhos que se casam e saem da casa dos pais e não têm emprego para pagar aluguel. Ivone Lopes, 20 anos, mora com duas filhas - uma de dois anos e uma de um mês - numa casinha de alvenaria construída com a ajuda da mãe. Ela deixou a casa dos pais há oito meses, no Jardim Luiz de Sá (zona norte), e passou a gravidez debaixo de um barraco na ocupação do Aquiles Stenghel. Ela é solteira e está desempregada.
Ângela Filomena de Moraes, 24 anos, também sustenta sozinha as três filhas na favela do jardim Olímpico (zona oeste). Invadiram a área 450 famílias. Há dois meses, Ângela e as filhas moram num barraco, rodeado de lama nos dias de chuva. Ela resolveu ir para o Olímpico porque não podia pagar o aluguel de R$ 100,00 na favela Nova Conquista (zona leste). Ângela travalhava como diarista. ‘‘Agora estou sem serviço. Ganho dinheiro lavando roupa do pessoal daqui’’. O tanque é comunitário. ‘‘Isso aqui parece mais uma fazenda de jagunço. Todo mês vem alguém pedir dinheiro para pagar a água e outras coisas. Só que até agora ninguém resolveu nada.’’
Maria Aparecida da Silva, 24 anos, também está há um mês na favela do Olímpico. Ela conta que ela e o marido pagavam aluguel de R$ 100,00 no Jardim Califórnia (zona leste). ‘‘Depois fomos para a casa do meu sogro e agora viemos para cᒒ. O marido, que trabalha como entregador, fez o barraco. Eles têm um filho de seis meses. ‘‘É difícil porque não tem luz. O barro vem até na porta de casa e tem uma torneira só para todo mundo’’.

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