Ney de SouzaCotação em dólarAcampamento no Jardim das Morenitas, onde 600 famílias de invasores vivem desde janeiro: 400 dólares cada loteAs invasões de terra fugiram do controle em Foz do Iguaçu e assustam até as lideranças de esquerda, que dão sustentação ao movimento na cidade. Somente em 96 e nos dois primeiros meses desse ano, 3.060 famílias entraram em reservas verdes, terrenos particulares e áreas técnicas. No entanto, um estudo feito pelo Departamento de Informações Institucionais da Prefeitura mostra que a maioria das ocupações, ao invés de representar um socorro para as milhares de famílias sem casa para morar, virou um negócio que rende muito dinheiro.
A Prefeitura de Foz tem uma lista de quase 15 mil pessoas nos seus programas de casas próprias. No entanto, segundo a Companhia Habitacional de Foz do Iguaçu (Cohafoz), isso não representa o real déficit habitacional. Na realidade, o município trabalha com uma demanda variável. O prefeito Harry Daijó (PPB) acredita na existência de um grande fluxo de pessoas pedindo casas e terrenos que, na maioria das vezes, acaba se dirigindo ao mercado negro.
Além das 3.060 novas famílias de sem-teto, a cidade ainda registra outras 3.880 que estão em áreas ilegais, totalizando um contingente de mais de 27 mil pessoas vivendo em áreas invadidas. A maior delas no Conjunto Soab, onde 397 famílias dividiram cada palmo de uma área técnica.
O próprio PT, que no ano passado ergueu a bandeira dos sem-teto elegendo dois vereadores, admite a indústria da invasão. ‘‘Quanto mais documentos são dados ao mutuário ou beneficiado com os programas habitacionais, mais eles se sentem no direito de vender’’, acredita o líder do PT na Câmara, vereador Dilto Vitorassi.
No ano eleitoral, as invasões pipocaram em todas as regiões da cidade. O PT não admite a ‘‘política de incentivo’’ às ocupações, apesar de ter apoiado todas elas. Somente na região da Vila C de Itaipu, 1.500 famílias ocuparam terras e levantaram barracos de lona e madeira, dando origem ao maior acampamento de Foz.
O estudo da Prefeitura aponta que 60% dos terrenos invadidos são destinados à venda. ‘‘É um problema econômico e não social’’, garante o diretor do Departamento de Informações Institucionais da Prefeitura, Luis Carlos Kossar. Segundo Kossar, 30% deles entraram nos acampamentos porque precisam de casa para morar. Porém, têm condições de pagar aluguel. Os 10% restantes precisam de casa e foram influenciados por lideranças do movimento, ficando na linha de frente.
Moeda forte Otávio Ferreira, um dos donos das terras do Jardim Morenitas, invadido em janeiro por 600 famílias, fez um levantamento e descobriu que cada terreno loteado pelos sem-teto pode ser comprado por até 400 dólares, moeda que circula livremente na fronteira.
No acampamento do Jardim Morenitas, considerado um barril de pólvora depois que o juiz Paulo Damas determinou a desocupação, um dos líderes do movimento admitiu em entrevista à Folha que a indústria da invasão vai de vento em popa. ‘‘Geralmente, a liderança coloca os sem-teto de verdade na linha de frente. No meio deles, há pessoas com casas e que se beneficiam do chamado ‘direito’. Quando recebem documentos, repassam e fazem um bom dinheiro’’, diz.
O comandante da Guarda Municipal de Foz do Iguaçu, coronel Renato Zelinski, confirma que a grande maioria das invasões tem cunho comercial. ‘‘O Morenitas é um exemplo disso. Muitos moravam numa outra área invadida, bem ao lado da nova ocupação. Agora, legalizados, eles venderam o lote e partiram para uma nova invasão. Onde é que nós vamos parar?’’
Saída Para tentar esfriar o mercado negro, o petista Vitorassi apresentou projeto na Câmara de Vereadores que começa a gerar polêmica. Defensor dessa classe, ele quer transformar os mutuários do Sistema Financeiro da Habitação em inquilinos.
Segundo o projeto, somente depois de pagar aluguéis referentes ao valor venal do imóvel, o inquilino terá direito a transferir a casa ou o terreno urbanizado em seu nome. ‘‘É uma forma de moralizar e acabar com a indústria da invasão’’, diz.

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