Invasão em Cascavel fica sem água e luz
Paulo Pegoraro
De Cascavel
Famílias sem-teto que ocupam terrenos do Jardim Gramado, em Cascavel, área considerada nobre por ser próxima ao centro, estão ficando sem água e energia elétrica, cortadas pela Sanepar e Copel. As empresas alegam que, por ser uma invasão, legalmente não é permitido o fornecimento.
O Jardim Gramado está ocupado desde fevereiro por 289 famílias, na maior e mais conturbada ocupação urbana de Cascavel. Os terrenos pertencem à empresa Sulbrasileiro Crédito Imobiliário, de Porto Alegre, e durante muitos anos permaneceram tomados pelo mato.
A Sanepar enviou operários ontem para desligar a rede mestre de abastecimento de água porque, segundo o gerente Afonso Marangoni, as famílias fizeram ligações clandestinas a maioria das casas, pouco mais que barracos. Um pelotão da Polícia Militar apoiou a ação porque, em ocasiões anteriores, quando ela foi tentada, houve resistência.
Marangoni explicou que, para a companhia fazer as ligações, é necessário a apresentação da escritura ou procuração do imóvel. A Sanepar não desconhece o problema social, mas não pode estimular invasões, acrescentou.
A assessoria de comunicação da Copel também argumentou a questão legal, mas reconheceu que chegaram a ser instalados postes e medidores na área, que depois foram desligados. Foi um equívoco de nossos funcionários, disse o assessor Eder Dudczak, justificando que o pedido havia sido feito por telefone, por alguns moradores.
Faltou averiguar as informações e obter a comprovação de propriedade. As famílias estariam inclusive fazendo ligações clandestinas, o que significa roubo de energia e risco para elas próprias, completou.
Os sem-teto estão revoltados com a situação. Não queremos roubar água nem energia, queremos pagar, mas as companhias se negam a fornecer os serviços, que são de cunho social, disse Sílvio Gonçalves, 30 anos, principal líder da ocupação.
Segundo ele, o prefeito Salazar Barreiros (PPB) e antigos moradores do Jardim Gramado opositores ferrenhos dos sem-teto teriam pressionado as companhias para que não forneçam água e nem energia. Simplesmente porque são contra nós e querem nos expulsar, mas não sairemos. As gerências da Sanepar, Copel e o prefeito negam a pressão, mas Salazar Barreiros (PPB) ressalta que é contra invasões.
A sem-teto Marlete Francisco, 40 anos, empregada doméstica, separada, mãe de dois filhos menores, procedente de São Miguel do Iguaçu, assistia revoltada ontem ao seccionamento da rede de água. Como acham possível que uma família sobreviva sem água?, indagou. Ao lado, a filha Maibre, 16 anos, que diz ser baby sitter crescentou: Não somos animais, mas animal pode viver sem luz, assim com as pessoas, mas sem água não.
Temos 350 crianças aqui e queremos saber quem vai se responsabilizar se houver uma situação de saúde grave, por falta de água e consequentemente de higiene, dizia o carpinteiro Euclides Felipe, 38 anos.
A situação do Jardim Gramado não tem solução aparente porque as famílias se recusam a sair mesmo com ordem de reintegração de posse. Em maio, a PM enviou um pelotão para acompanhar operários enviados pela Sulbrasileiro para desmanchar as casas, mas os sem-teto resistiram e houve violência, até a tropa recuar, evitando conflito ainda maior.
As famílias querem uma área alternativa, com infra-estrutura, para serem transferidas, mas isso depende da participação direta da empresa e da prefeitura. A Sulbrasileiro aceita vender os terrenos do Gramado, mas pediu R$ 15 mil de cada um, o que é considerado inacessível pelos ocupantes.





