Valmir Denardin

Ney de SouzaAbandonoJair Antonio Ruhoff, administrador da fazenda, numa plantação experimental tomada pelo mato; inseguros, funcionários não se distanciam da sede A invasão por sem-terra da Fazenda Mitacoré, localizada no município de São Miguel do Iguaçu (45 quilômetros ao norte de Foz do Iguaçu), levou à suspensão completa das pesquisas agrícolas que estavam sendo desenvolvidas na área há até 12 anos por organismos públicos e empresas privadas. Até a ocupação, iniciada em agosto do ano passado, a propriedade mantinha a única estação experimental agrícola em atividade na região Extremo Oeste do Paraná.
Considerada uma fazenda modelo na adoção de tecnologia e detentora de oito prêmios de produtividade de milho, a Mitacoré (que significa ‘‘filho esperado’’, em tupi-guarani) foi comprada em 1980 pelo grupo Bamerindus. Desde o final de março do ano passado, a holding está sob intervenção do Banco Central. A partir de agosto, a fazenda, com 1.098 hectares, passou a ser ocupada por famílias ligadas ao Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Ney de SouzaNovo donoO líder sem-terra Altair Simionato numa plantação em área invadida; invasores desdenham da pesquisa e dizem que propriedade estava abandonada há 3 anosSegundo o técnico agrícola Jair Antonio Ruhoff, administrador da fazenda, a invasão levou ao abandono gradativo os trabalhos de pesquisa que vinham sendo realizados em uma área de dez hectares da propriedade, destinada para esse fim.
‘‘Os sem-terra ocuparam partes da área experimental e plantaram nela, danificaram algumas das culturas e até roubaram espigas do milho que era reservado a estudos’’, afirma Ruhoff. ‘‘Além disso, depois da invasão, nem os funcionários da fazenda e muito menos os pesquisadores se sentiram seguros para ir às áreas de experimentos.’’ De acordo com o administrador, à medida que os sem-terra avançavam sobre a propriedade, os funcionários recuavam, temendo um possível confronto.

Produtividade das lavouras da região pode ser afetada sem os experimentosA Fazenda Mitacoré mantinha convênios com o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e algumas das maiores empresas de produção de sementes e insumos agrícolas do Brasil. Ao todo, estavam sendo desenvolvidos mais de 200 trabalhos de pesquisa, que englobam as culturas de milho, soja, algodão, trigo, aveia, arroz e girassol.
Em um dos trabalhos considerados mais importantes, estavam sendo avaliadas na estação experimental as 21 cultivares (variedades de sementes) de soja mais utilizadas no Extremo Oeste paranaense, uma das principais áreas produtoras da cultura no Estado. ‘‘Sem esses estudos, o produtor rural ficará sem saber qual a melhor cultivar para a sua propriedade’’, aponta Ruhoff.
A colheita de uma área com quase um hectare de milho, que estava sendo estudada pelo agrônomo do Iapar Edson Lima de Oliveira, estava prevista para ontem, mas não foi possível. Oliveira informou à Folha, por telefone, da sede do órgão, em Londrina, que o trabalho foi cancelado porque os sem-terra já haviam colhido a maior parte das espigas.
‘‘Minha pesquisa foi seriamente comprometida’’, lamenta o agrônomo. Há quatro anos, Oliveira vinha desenvolvendo na mesma área estudos para aumentar a eficiência no uso de fertilizantes à base de nitrogênio na cultura de milho. A partir desta colheita, ele faria sua primeira avaliação dos resultados. Segundo ele, o custo da pesquisa para o órgão público não era inferior a R$ 4 mil anuais.
Antes da invasão, a Mitacoré também era usada como campo experimental de defensivos agrícolas. Todos os produtos lançados pelas indústrias eram testados nas lavouras da fazenda antes de serem levados ao mercado da região. Esse tipo de trabalho também foi suspenso.
Outra atividade afetada foi a operação da estação meteorológica com fins agrícolas que a Mitacoré mantinha desde 1982, em convênio com o Iapar. A estação - a única do Extremo Oeste do Estado - fornecia boletins diários e detalhados sobre a incidência de chuvas, a umidade do ar e a temperatura.
As medições manuais, que eram feitas em três horários do dia, foram suspensas em outubro do ano passado. Segundo Ruhoff, não havia segurança para enviar um funcionário da fazenda até a estação (distante da sede), principalmente para fazer a medição das 21 horas. Os equipamentos da estação serão recolhidos esta semana. Será mantida apenas uma estação que envia dados diretamente por satélite ao Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar).
Altair Simionato, um dos coordenadores do acampamento dos sem-terra na fazenda, confirmou à Folha que os invasores retiraram da área de pesquisa ‘‘algumas espigas de milho, que iam apodrecer na lavoura’’. Mas ele negou que a suspensão dos experimentos seja consequência da ocupação comandada pelo MST.
‘‘Lá não tinha nada de pesquisa. Fazer um canteiro de experimento qualquer um faz’’, desdenhou. Simionato afirmou que funcionários da fazenda contaram aos sem-terra que as pesquisas no local estavam abandonadas havia três anos.
O administrador da fazenda previu que a recuperação das lavouras e do centro experimental levaria, no mínimo, três anos. Segundo ele, só na plantação de soja, que deixou de ser feita, a propriedade perdeu nesta safra cerca de R$ 300 mil. ‘‘Mas o prejuízo maior foi na área experimental, que poderá comprometer os índices de produtividade da região.’’

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