Intrigas contra um ex-combatente
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quarta-feira, 15 de maio de 2002
Alexandre Palmar Equipe da Folha 
Maio de 2001. O aposentado Lisboa tem pouco a comemorar no mês de aniversário da Lei Áurea. Depois de participar da Segunda Guerra, de colecionar condecorações e de casar com uma alemã linha dura, o morador da Rua Libra, em Foz do Iguaçu, demonstra sinais de desilusão com o próximo.
Tudo por causa de uma rixa com sua vizinhança da zona norte. Os vizinhos acusam o senhor de 78 anos de cometer atentado ao pudor. Donas-de-casa o denunciam à comunidade por mostrar a genitália à mulherada que passa pela rua. Até homens teriam sido alvos do exibicionista.
Para Lisboa, tudo não de uma perseguição por ele ser negro. Pressionado, faz uma confissão ao padeiro, dizendo sofrer de incontinência urinária. A vontade de fazer xixi nem sempre obedece aos comandos da cabeça, brinca, contando que, num dia de descontrole, abriu a calça quando entrava em casa. O relato sobre o mal-entendido foi suficiente para ampliar a polêmica.
Desde aquele dia, cada conversa se transforma numa versão diferente para o episódio, reforçando a cômica história de libertinagem. O caso vai parar no Juizado Especial Criminal. Apesar da explicação do réu, o juiz toma uma decisão unilateral: proíbe Lisboa de mostrar o pênis aos vizinhos. Do contrário, cadeia, sem direito à cela especial.
A sentença é a gota dágua. De saco cheio, o senhor resolve radicalizar. Coloca um tapume de madeira de 2 metros de altura e 15 metros de largura em frente da residência, para se esconder. Assim, ninguém poderá acusá-lo de sem-vergonhice ou de ser um negro safado, com disseram ao magistrado.
Maio de 2002. Pedro chega ao bairro em busca do amigo Lisboa. Acha no endereço indicado num papel amassado uma bonita casa, mas é atendido por um desconhecido, de quem recebe a notícia sobre a mudança do antigo morador há meses. Testemunhas dizem que o ex-combatente, cansado de ofensas, fez questão de afrontar o juiz ao encenar um maroto adeus a vizinhança puritana.


