Vivian de Albuquerque
Uma comemoração aos 500 anos do descobrimento do Brasil feita de maneira bem diferente. Foi isso o que puderam ver as pessoas que foram ontem ao Complexo Médico Penal, no município de Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba. Vinte detentos, dos 360 do antigo Manicômio Judiciário, participaram de uma peça de teatro abordando o tema sob uma visão nada convencional.
Com algumas das roupas cedidas pelo Teatro Guaíra, o projeto foi desenvolvido pelos professores do Centro de Estudos Avançados à Distância Doutor Mário Faraco, em conjunto com a TV Futura e o setor de psicologia da Secretaria Estadual de Justiça. O resultado foi uma peça de teatro divida em dois atos, mostrando desde o descobrimento até a relação existente entre brancos, índios e negros.
Sem conseguir esconder a emoção, o detento Saulo Eugênio da Silva, o Cabral da peça do CMP, falou de sua atuação como a realização de um sonho. ‘‘Estou aqui há 14 anos, porque cometi um delito contra a sociedade. E sinto que o teatro é um progresso no meu espírito’’, disse ele.
De acordo com a chefe do Setor de Pedagogia da Secretaria de Justiça, Ana Maria Schneider, uma das maiores vantagens para o detento ao participar das atividades de arte-terapia é justamente a de poder liberar as causas de sua depressão. Fator que, muitas vezes, acabou influindo nos ensaios do grupo. ‘‘É um trabalho fantástico porque funciona como um coadjuvante no tratamento médico que é feito com eles’’, explicou. ‘‘Mas ao mesmo tempo é também muito difícil. Tivemos pessoas que estavam indo muito bem, quando sem mais nem menos tinham um ataque epilético ou um surto e paravam com tudo’’.
O Complexo Médico Penal atende aos chamados presos inimputáveis. São pessoas que cometeram crimes considerados hediondos, geralmente contra a própria família, mas que não estavam em condições de serem julgadas porque estavam sob efeito de álcool, drogas ou surtos psicológicos.
Satisfeito com a apresentação, o secretário de Justiça, José Tavares, fez questão de cumprimentar todos os atores e organizadores da peça. Segundo ele, uma demonstração de que o detento do CMP tem boas chances de recuperação.‘‘Somos todos seres humanos e precisamos acreditar nas pessoas. Vou morrer com a certeza de todo mundo pode se recuperar um dia’’, afimrou Tavares.

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