Não é novidade que Curitiba recebe diariamente centenas de novos habitantes. Entre milhares de anônimos, entretanto, alguns cérebros brilhantes se destacam. São personalidades ilustres, como o jornalista e escritor carioca José Castelo ou o professor e poeta paulista Décio Pignatari, que adotaram a cidade como novo e definitivo endereço.
É fácil encontrar o professor e sua família passeando pelos parques curitibanos. Assistir ao pôr-do-sol no Parque Tanguá e caminhar diariamente pela ciclovia, no trecho entre o Bosque do Papa e o Parque São Lourenço, foram eleitos os programas preferidos de Pignatari, 71 anos e sua mulher Soraya Alves, 34 anos, instalados há menos de dois meses no bairro do Ahú.
José Castelo escreve diante da paisagem de Curitiba e não vai embora‘‘Em Curitiba, as ruas são mais largas, a cidade é arborizada e o sistema de tráfego funciona’’, afirma ele. O fato de terem dois filhos pequenos, Sofia e João Pedro, de cinco e quatro anos, também influenciou na decisão de trocarem São Paulo por Curitiba. ‘‘Eu me acharia irresponsável se os deixasse crescer no meio da poluição e da violência daquela cidade’’, comenta Soraya, paulistana e professora universitária como o marido.
Filho de italianos, Pignatari conta que há muito tempo queria sair de São Paulo, cidade que apelidou de ‘‘Chicago desordenada’’. Ele critica o ‘‘modo americano de viver’’ dos paulistas, da mesma forma em que elogia o padrão europeu existente em Curitiba.
O professor comenta que pensou em ir para cidades paulistas menores, como Campinas e Jundiaí, mas acabou optando por Curitiba. ‘‘Esta é a única cidade que eu conheço que tem um plano urbanístico de crescimento e desenvolvimento que não ficou só no papel’’, diz. Pignatari fala com a experiência de quem foi professor de Semiótica em Urbanismo, no curso de arquitetura, durante 20 anos.
Ele conheceu Curitiba há mais de 30 anos, ‘‘quando o Paulo Leminski tinha 18’’, brinca. ‘‘Vi a cidade se transformando e gostei do que estava vendo’’, diz. Pignatari também elogia o posicionamento dos curitibanos, dizendo que eles vivem, discutem e participam mais da vida da cidade do que outros povos. ‘‘Acho que os curitibanos têm uma consciência maior da história da sua cidade’’.
Quem também faz parte da turma de intelectuais que escolheu Curitiba para morar é o jornalista e escritor José Castelo, 48 anos, colaborador do jornal O Estado de São Paulo e das revistas Istoé e Playboy. Instalado num belo duplex no bairro Cristo Rei, onde passa grande parte de seus dias, ele afirma categoricamente que não pensa mais em sair de daqui.
‘‘Em cinco anos de Curitiba, escrevi quatro dos meus seis livros, o que prova como a minha produção melhorou’’, argumenta. Embora todos os seus caminhos profissionais o levassem a São Paulo, o carioca comenta que não gostaria de passar a vida ‘‘trancado em prédios da Marginal, atolado nas enchentes do Tietê e respirando poluição’’.
O Rio de Janeiro, apesar de ser a sua cidade do coração, também perdeu pontos para o jornalista devido à violência e ao caos urbano. ‘‘O dia-a-dia é desgastante e confuso demais, além do clima muito quente, que não é produtivo para o trabalho’’. Por isso, sua opção não levou em conta o mercado de trabalho, mas a qualidade de vida.
Ele acha que em Curitiba o nível de violência é suportável, a poluição é baixa e os engarrafamentos são controlados. ‘‘Por isso a adotei como minha cidade e não pretendo mudar de opinião’’, diz. Vegetariano e amante das longas caminhadas, ‘‘o que Curitiba nos permite fazer muito bem’’, Castelo leva uma vida pacata. Receber amigos em casa é uma das diversões preferidas.
Ele garante que não foi influenciado por nenhuma propaganda da cidade, no momento de optar por Curitiba, tanto que cogitou a possibilidade de morar em Florianópolis, cidades do Nordeste ou na região serrana do Rio de Janeiro. Cada um dos destinos foi descartado por um motivo, sobrando apenas a capital do Paraná.
Apaixonado pela cidade, mas consciente de seus problemas sociais, ele critica o processo de crescimento excessivamente rápido dos últimos três anos. ‘‘Isto é negativo a partir do momento em que está fora de controle. Em sua opinião, as montadoras de automóveis deveriam se instalar em áreas mais longe da cidade.
‘‘A qualidade de vida e os bens ambientais de Curitiba são o mais importante a ser preservado’’, afirma. Ele pede que os curitibanos reflitam sobre os problemas levados a São Paulo, a partir da instalação de grandes indústrias, o que gerou progresso para a cidade, mas a desgastou muito. ‘‘Hoje, o que os paulistanos mais querem é menos violência e mais verde’’, afirma.

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