A Guarda Mirim de Londrina atende 15 jovens em situação de acolhimento: futuro profissional
A Guarda Mirim de Londrina atende 15 jovens em situação de acolhimento: futuro profissional | Foto: Fabio Alcover


Em tese, o acolhimento institucional se encerra quando o adolescente completa 18 anos de idade e por esse motivo a passagem do tempo para alguns deles costuma vir acompanhada de muita angústia e incertezas. Foi assim com um adolescente prestes a completar 17 anos e que vive na Casa de Maria, em Londrina. No caso dele, a saída da instituição pode ser antecipada já que a entidade deverá encerrar as atividades no final deste ano.

O rapaz foi encaminhado ao acolhimento aos quatro anos de idade junto com seus três irmãos. O mais novo foi adotado, os dois mais velhos já deixaram a instituição, mas quando ele se deu conta de que a vez dele se aproximava, sentiu-se perdido. Nos estudos, avançou apenas até a sexta série do ensino fundamental e achava que não estava preparado para a vida profissional. "Não me sentia bem sendo entrevistado para um emprego", conta. Ele já tinha trabalhado com carteira assinada em um pet shop e teve alguns empregos informais, um deles em uma academia, mas não via nessas atividades uma perspectiva de crescimento profissional.

A esperança surgiu ao ser encaminhado à Guarda Mirim de Londrina, parceira no projeto Abrace um Futuro, da Vara da Infância e Juventude de Londrina. Na entidade, o adolescente começou a se qualificar para o mercado profissional, passou por uma entrevista de emprego e foi selecionado para atuar como aprendiz. No momento, ele faz o curso introdutório de aprendizagem e a partir do mês que vem deve começar a trabalhar no setor de expedição de uma multinacional, onde será responsável pela conferência de notas e embalagens. O contrato tem duração de 16 meses. "Hoje tudo é diferente. Não tinha o pensamento de que eu poderia crescer na empresa. Agora eu voltei a estudar, estou no Ceebja, começo a me planejar para viver de forma independente fora da instituição e posso sair da empresa como gerente", planeja.

Um outro adolescente, de 18 anos, também foi encaminhado a uma instituição muito cedo, aos três anos de idade. Por lá permaneceu até os nove anos, quando foi morar com os avós. Aos 14 anos voltou ao acolhimento, no Lar Anália Franco, onde ainda vive apesar de já ter atingido a maioridade.

Desde que retornou à situação de acolhimento, o adolescente percebeu a importância de agarrar todas as oportunidades que surgiam por meio dos apadrinhamentos. Estudou por um período em colégios particulares, fez curso de inglês por um ano e conseguiu tratamento ortodôntico gratuito. Foi por meio de pessoas que colaboravam com a instituição que arranjou o primeiro trabalho, no início de 2015, em uma loja de revenda e conserto de aparelhos celulares. O emprego durou dois anos até que ele sentiu que não tinha perspectivas para o futuro. "Apesar de todas as oportunidades, foi tudo muito rápido e eu não estava me reconhecendo, me olhava no espelho e não sabia quem eu era. Fazia da empresa a minha vida e chegava a ficar lá até dez horas por dia. Estava deixando os estudos de lado e reprovei dois anos. Decidi sair do emprego", recorda.

Foi na Aprendizagem Profissional da Guarda Mirim que ele começou a se reencontrar. Hoje atua como aprendiz em uma empresa de juntas automotivas durante quatro horas e no restante do tempo se dedica aos estudos e ao lazer. "A Guarda me recuperou. Voltei a sonhar com a faculdade, mas antes quero fazer um curso técnico na área de engenharia e penso em alugar uma casa para ir morar com a minha irmã quando sair do acolhimento."

Recentemente, ele foi convidado a narrar sua experiência de vida no Seminário de Aprendizagem Profissional da Secretaria da Família e Desenvolvimento Social do Paraná a uma plateia na qual estavam adolescentes atendidos pela Guarda Mirim, representantes dos conselhos tutelares, empresas e redes de proteção. "É bom porque as pessoas podem usar a minha experiência como combustível", diz. "As oportunidades que tive com o apadrinhamento mudaram tudo. Foram minha vida, minha formação cidadã. Tinha acabado de perder o contato com a minha família e foi bom para o meu conhecimento e para a minha autoestima."

A Guarda Mirim de Londrina atende 15 jovens em situação de acolhimento. O coordenador geral, Claudio Melo, destaca que a passagem pela entidade é determinante para o futuro profissional dos adolescentes institucionalizados. "A gente enfatiza que ele tem qualidades e potenciais. A instituição não trabalha a preparação para o mundo profissional. Se o abrigo encaminhasse esses adolescentes para a qualificação aos 14 anos de idade, aos 18, quando eles deixassem a instituição, estariam preparados."

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