O procurador da República em Cascavel Celso Antônio Três está instruindo representação à Justiça Federal e pedirá abertura de inquérito contra o chefe de perícias do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), médico Yegor Moreira, por sua atuação em casos de Doença Ocupacional Relativa ao Trabalho (Dort), a lesão por esforço repetitivo. O procurador pedirá a exoneração de Moreira, que também assessora empresas. Ele é acusado por trabalhadores de impor-lhes comparecimento ao trabalho, mesmo sob licença determinada por médicos particulares.
A representação e o inquérito - que deve ser feito pela Polícia Federal - são consequência de mobilização de sindicatos de trabalhadores e da associação local dos portadores de Dort, que vêm denunciando insistentemente o serviço de perícia. Segundo documento entregue pelas entidades ao procurador, os doentes são tratados ‘‘com menosprezo’’ e o INSS teria uma ‘‘política deliberada’’ de negar-lhes os benefícios previdenciários que decorreriam do afastamento do trabalho. Na Justiça local já há liminares obrigando empresas a pagar o auxílio-doença, e pedidos de reintegração de demitidos.
Ontem, a telefonista Guacira Lopes Valença de Melo, 43 anos, dois filhos, que alega sofrer de Dort há 8 anos, teve que retornar ao trabalho na Telepar, onde está há 18 anos, depois que Yegor Moreira negou atendimento à licença que havia sido determinada segunda-feira pelo médico particular Victor de Souza. O despacho do chefe da perícia diz que só compete ao INSS ‘‘a caracterização de incapacidade laborativa por doença ocupacional’’.
Terça-feira, Guacira, acompanhada do marido, o radialista Paulo Melo, fez exames em uma clínica, solicitados pela Fundação Telepar. Segundo Paulo Melo, havia a recomendação de que o resultado não fosse fornecido à paciente, mas diretamente à fundação. ‘‘Não se tem o direito de saber o que médicos constatam em nosso corpo’’, disse Paulo Melo, preservando a esposa de fazer queixas por ser funcionária pública. Guacira usa talas de apoio nos membros superiores para proteger nervos e evitar dores. A Telepar tem evitado discutir os casos de Dort, limitando-se à exigência do cumprimento de laudos do INSS ou às decisões judiciais.
Yegor Moreira presta ao mesmo tempo serviços à fundação e outras empresas na área médica, por isso Celso Antônio Três quer enquadrá-lo por ‘‘improbidade administrativa’’. Segundo o procurador, ele ‘‘patrocina interesses privados usando o cargo público’’, e ‘‘trafica influência no INSS’’. Por isso, quer seu afastamento liminar do cargo, e a seguir exoneração definitiva. O inquérito policial apurará ‘‘patrocínio de interesses privados’’.
Moreira e outros representantes do INSS tentaram ontem convencer o procurador de que apenas cumprem ‘‘normas’’. Três disse-lhes que devem ‘‘convencer a Justiça’’. Moreira foi procurado pela Folha, mas não deu retorno aos recados.Edson MazzettoAlta precoceA telefonista Guacira Melo voltou ao trabalho porque o INSS contestou pedido feito pelo médico delaPaulo Pegoraro

mockup