Insegurança
As pessoas devem tomar muito cuidado e não facilitar a ação dos delinquentes
Roberto Ferreira do Valle, juiz da Vara de Execuções Penais
Uma ocorrência a cada 16,8 minutos, perfazendo um total de 4.608 atendimentos pela Polícia Militar (PM) nos dois primeiros meses deste ano. No ano passado, foram 26.191, dos quais 2.095 arrombamentos de casas e estabelecimentos comerciais, 24 assassinatos e 1.160 roubos de automóveis. Nas cinco varas criminais da Cidade, estão em andamento cerca de 4.500 processos para apurar todo tipo de violência, entre os quais aproximadamente 70 são por homicídios. Pesquisa do instituto Alvorada mostra que 60,3% dos londrinenses consideram a Cidade violenta e 28,7% já foram vítimas de algum tipo de crime.
Estes e outros números e dados, divulgados ontem com exclusividade pela Folha, não são suficientes para convencer as autoridades policiais de que a Cidade convive com uma onda crescente de criminalidade e insegurança.
Em relação a outras cidades do mesmo porte, Londrina ainda pode ser considerada tranquila. A criminalidade não é tão grande assim, como as pessoas comentam. Os dois maiores problemas são os assaltos a bancos e o aumento do consumo de drogas, avalia o delegado-chefe da Polícia Federal, José Roberto Morel. Segundo ele, o aumento da violência - presente em todas as cidades brasileiras médias e grandes - está intimamente ligado à migração desorientada do meio rural para os grandes centros. Pela falta de uma política agrícola, as pessoas vêm para as cidades pensando em melhorar na vida, mas 90% acabam em pior situação do que viviam no campo. Esta mão-de-obra é desqualificada e não encontra emprego. Daí para a criminalidade é um caminho muito curto.
Para o delegado-chefe da Polícia Civil, Leonyl Ribeiro, o aumento da criminalidade e a segurança da população em Londrina estão sob controle. Londrina não tem uma situação especial neste setor. A violência, hoje em dia, está presente em todas as cidades deste tamanho e inclusive nas menores, como Maringá, Foz do Iguaçu e Cascavel. Infelizmente, a violência se generalizou, mas este é um fenômeno mundial e não específico de nossa Cidade.
Ribeiro concorda que o desemprego e outros problemas sociais levam à criminalidade. O fim da cafeicultura e a mecanização da agricultura trouxeram para Londrina gente que não encontra emprego. Grande parte desta população vive de pequenos furtos e do comércio de drogas, diz o delegado. Outro fator que tem influência é o geográfico. Londrina atrai muitos criminosos de outros estados porque fica no centro de uma região rica - entre São Paulo e países do Mercosul - e oferece muitas possibilidades de fuga, ao contrário, por exemplo, de Paranaguá e outras cidades.
Há pouco mais de um mês em Londrina, o comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Marino Ari Burille, diz conhecer a situação da violência na Cidade basicamente através do número de ocorrências e das estatísticas. Ele garante que a situação, apesar de difícil e preocupante, não deve ser encarada com alarde e nem sensacionalismo. A criminalidade depende menos da segurança, do policiamento, e mais da situação econômica e social das pessoas, da população.
O juiz da recém-instalada Vara de Execuções Penais (VEP) e Corregedoria dos Presídios de Londrina e região, Roberto Ferreira do Valle, é voz destoante neste coro de autoridades que dizem estar tudo sob controle na área da segurança. Segundo ele, a insegurança é total hoje na Cidade. A família dele já foi vítima de dois assaltos, nos últimos anos. No primeiro, levaram parte da sua mudança de dentro do caminhão da transportadora, que passou a noite no estacionamento de um posto de combustíveis. No segundo, seu filho menor foi assaltado numa rua do centro.
Infelizmente, a criminalidade é tão grande que já começaram a roubar em garagens de prédios e nos apartamentos, que até poucos anos eram completamente seguros, comenta Roberto do Valle. As pessoas devem tomar muito cuidado e não facilitar a ação dos delinquentes. Hoje, não são só os bairros mais distantes os perigosos; o centro também está bastante inseguro, dependendo do horário. Eu, mesmo armado, tenho medo de caminhar à noite pelo centro da Cidade.
Dados da pesquisa Alvorada mostram os principais caminhos para melhorar a segurança, na opinião dos londrinenses: policiamento 24 horas por dia (27% dos entrevistados), aumento de policiais nas ruas (20,7%), combate ao tráfico de drogas (10,3%), prisão de menores infratores (10%) e instalação de novos módulos policias (6,7%). Os responsáveis pelas polícias que atuam na Cidade até concordam em parte com estas necessidades e propostas, mas alegam que elas são de difícil execução por falta de recursos e devido ao pequeno efetivo de policiais disponível atualmente.
O delegado Morel não informa o efetivo da PF, mas sabe-se que ele é reduzido e atua em 96 municípios da região, basicamente na defesa do patrimônio da União e no combate ao contrabando e tráfico internacional de drogas. O comandante da PM, Marino Burille, também não divulga o efetivo do 5º Batalhão - que sabe-se ser cerca de mil soldados - e diz que não tem condições de colocar mais gente nas ruas. Nosso efetivo não está aquartelado. Dentro da carga horária disponível e respeitando-se as escalas, nossos soldados estão todos nas ruas. Para aumentar este policiamento, necessitamos de mais soldados no batalhão.
A situação da Polícia Civil parece ser ainda mais crítica. Com um efetivo de aproximadamente 100 policiais, o delegado Leonyl Ribeiro admite que às vezes fica com a cabeça fervendo porque não dá conta de atender a todos os problemas de segurança que lhe chegam às mãos. A situação piorou ainda mais nos últimos anos, depois que o ex-governador Roberto Requião extinguiu o cargo de carcereiro e os investigadores foram deslocados para cumprir esta função nos três distritos policiais que servem como prisões provisórias. O problema de falta de efetivo na Polícia Civil é sério no Brasil inteiro, mas em Londrina é mais grave. Além disto, faltam automóveis e armas. Mas está situação não é nova. Ela é a mesma, no Paraná, nos últimos 32 anos; ou seja, desde que eu sou delegado.POLÍCIA ACHA QUE A
CIDADE É TRANQUILA
Apenas a Polícia Militar atende uma ocorrência a cada 16 minutos. Números como esse, que assustam a população, são considerados normais pelos chefes das três políciais que atuam na Cidade: Leonyl Ribeiro (Civil), Ari Burille (Militar) e José Roberto Morel (Federal) afirmam que, comparada com outras do mesmo porte, Londrina tem a situação sob controle. Já o juiz da Vara de Execuções Penais diz que não tem coragem de caminhar pelo centro à noite.
Osmani Costa





