Burocracia e falta de estrutura causam lentidão nas investigações na Delegacia de Trânsito de Londrina. A opinião é do delegado responsável, Valter Martins Lemos.
Para se ter uma idéia da situação: entre os casos emperrados, está a investigação de um acidente ocorrido dia 9 de dezembro de 1991, que resultou na morte de João Pedro Florentino. Ele pilotava uma lambreta placa AAT 8394, que foi atingida por um veículo até hoje não identificado.
Segundo testemunhas, o carro pode ser um Monza ou um Opala. Nesse inquérito, há uma ordem de serviço que demorou cinco anos para ser cumprida. ‘‘Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica para encontrarmos o culpado. Mas temos esperança de ainda conseguirmos solucionar este caso’’, comenta o delegado.
Desde que a Delegacia do Trânsito foi instalada em Londrina, pelo menos um inquérito tramitou em tempo recorde. Foi o que apurou o atropelamento da jovem Vanessa Maia, 18 anos, durante um ‘‘racha’’ entre dois veículos. O desastre aconteceu na madrugada do dia 15 de agosto de 97, na Avenida Tiradentes. No momento da tragédia, Vanessa, o irmão e uma amiga voltavam de um evento no Parque Ney Braga (zona oeste da Cidade).
O carro que atropelou Vanessa era conduzido por Marcelo Coutinho. De acordo com testemunhas, ele disputava um racha com Edmar Mattos. O inquérito foi instaurado dia 18 de agosto e concluído dia 5 de setembro. Hoje está na 1ª Vara Criminal. Valter Lemos admite que a pressão da imprensa foi decisiva para que o caso fosse apurado rapidamente.
‘‘A cobrança era diária devido à repercussão do caso, principalmente por ter ocorrido durante um racha. A polícia não deixa de ver todos os casos, mas a repercussão acaba apressando os trabalhos, porque há uma cobrança em cima de cada órgão’’, diz o delegado.
Muitos outros inquéritos não tiveram a mesma sorte. Como no caso que vitimou a menina Marcele Ribeiro Santos de Oliveira. Ela estava num ponto de ônibus da Avenida Winston Churchill, em 24 de outubro do ano passado, quando foi atropelada por um trator pá-carregadeira, conduzido por Claudemir Bortoli. Ele e o proprietário do trator, Livanir João Bertoli, foram indiciados. Embora o acidente tenha acontecido há quase seis meses, o Instituto Médico Legal ainda não encaminhou à delegacia o laudo de necrópsia da vítima para ser anexado ao inquérito, que não pode ser encaminhado ao Fórum sem a peça.
A morte da menina Luciana Reis da Silva, ocorrida em 13 de julho de 96, ainda está em fase de inquérito por falta de um laudo complementar que deveria ser encaminhado pelo IML. Outro fator que dificulta o andamento do inquérito é burocrático. A mãe da menina, Ester Onório da Silva, deve se manifestar para dizer se quer ou não que o motorista que atropelou sua filha, Yvan César Lopes, seja processado.
‘‘Devo admitir que neste caso houve falha da delegacia. O escrivão que tomou o depoimento de dona Ester deveria ter-lhe feito a pergunta’’, comenta o delegado. A formalidade também é exigida no inquérito. A menina foi atropelada junto com a mãe e Nelson Morastico, que ficaram feridos. Eles atravessavam a Rua Eurico Gaspar Dutra, na zona sul de Londrina. O motorista não tinha habilitação.
No dia 22 de julho de 96, outro caso chamava a atenção da imprensa. O menor André Pelaes Kiyonaga, então com 17 anos, bateu o Fiat Elba que dirigia em uma árvore e posteriormente num muro da avenida Tiradentes, causando a morte de Leonardo André Lopes e ferimentos em Maricele Arantes, Andrew Giroldo de Oliveira e Ana Cristina Scarchette. Todos estavam no carro.
Este é mais um caso que está nas mãos do IML para ser concluído. Faltam o laudo de necrópsia do corpo de Leonardo Lopes e o laudo de lesão corporal de Maricele. Neste caso, a indiciada é a mãe de André Pelaes, Gersides Pelaes Kiyonaga, por entregar o carro ao filho, que era menor de idade.
Ainda em 96, na madrugada de 15 de dezembro, um acidente ocorrido na avenida JK com rua Espírito Santo causou a morte de Márcio José da Silva. Ele estava no Passat, placas AAM 5392, conduzido por César Eduardo Silva Máximo, que bateu num poste. O passageiro do carro, Enzio José de Lima, ficou ferido. O inquérito está quase concluído. Na semana passada faltava apenas fazer acareação entre testemunhas para saber se o motorista estava ou não embriagado.
A demora para buscar testemunhas e definir questões aparentemente simples acontece, segundo o delegado, pela falta de pessoal na Delegacia de Trânsito. Para atender os 215 inquéritos em andamento, a delegacia dispõe de um delegado, um investigador, dois escrivães e uma viatura policial.
Em 97, o trânsito não foi menos violento que em 96. Vários inquéritos se somaram aos que tramitam lentamente entre a delegacia e o Fórum, sem que haja uma solução.
No dia 5 de fevereiro de 97, a imprudência do motorista José Arthur Gonçalves Barros vitimou Zeny Bueno de Camargo. O motorista entrou na contramão na rua Serra da Graciosa, no Jardim Bandeirantes (zona oeste), conduzindo o Monza LXJ 6586, e atropelou a moto placas AFY 9756, pilotada por Cícero Barbosa de Medeiros. Zeny estava na garupa da moto. O inquérito não foi concluído porque falta ouvir testemunhas.
Também aguardando depoimento de testemunhas, além dos laudos do IML, está o inquérito que apura responsabilidades pelo acidente que envolveu um ônibus da Viação Francovig e um caminhão carregado de cal, ocorrido em 25 de setembro do ano passado na rodovia PR-445.
O ônibus era conduzido por Pedro José da Silva e o caminhão, por Iraci da Silva. Morreram os passageiros do coletivo Maria Aparecida Bonim, Serafim Figueira Baião e José Brás dos Santos. Outras oito pessoas ficaram feridas. Os dois motoristas estão indiciados. ‘‘Não será difícil concluir esse inquérito’’, avalia o delegado.
Na tarde de 18 de dezembro de 97, Claudemar D’ Arc das Dores, 7 anos, brincava em frente a sua casa, na Rua Seimu Oguido, na Favela do Quati (zona norte), quando foi atropelado pelo caminhão Ford placas AFA 7925, dirigido por Roberto Radetzke. O veículo perdeu o freio. O motorista e o dono do caminhão, Gerônimo Novaes de Lira, estão indiciados. A conclusão do inquérito, mais uma vez, depende do laudo de necrópsia que deve ser encaminhado pelo IML.
O delegado já conhece as causas de tanta lentidão. ‘‘Há problemas de uma forma geral: falta pessoal, falta computador, o IML demora para mandar os laudos, o Instituto de Criminalística também, o Fórum atrasa.’’
Existe a idéia de criar um Batalhão de Trânsito em Londrina. Valter Lemos acredita que, se o batalhão fosse criado, seria preciso melhorar a estrutura da delegacia.
Outra sugestão do delegado é simplificar a tramitação dos inquéritos. Hoje, quando necessitam de dilação de prazo - os delegados têm 30 dias para concluí-los -, os documentos têm que seguir para o cartório da 10ª Subdivisão Policial, depois para o cartório distribuidor do Fórum. De lá para o cartório da Vara, que irá analisar o pedido e só então para o promotor, que dará o parecer. Feito o caminho de ida, o inquérito percorre um caminho um pouco mais curto para retornar, passando pelo cartório da Vara que o analisou, 10ª SDP e Delegacia de Trânsito.
‘‘Minha sugestão é que os delegados fizessem a comunicação à Justiça de que foi instaurado o inquérito. Assim o inquérito só iria para o Fórum quando estivesse totalmente concluído, sem a necessidade de ir a cada 30 dias para lá.’’ Outra hipótese levantada por Valter Lemos é que fosse indicada uma equipe de promotores para ir à delegacia uma vez por mês, quando analisariam os inquéritos e já decidiriam pela prorrogação de prazo.

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