Inquérito fazia referência a urubus
Encarnación Zapata conta que tomou conhecimento do Caso Guarapiranga através de um amigo, o médico dermatologista de São Paulo Rubens Sérgio Góes. O caso havia sido levado até ele por seu primo, o perito criminal Rubens Silvestre Marques, hoje aposentado. Quando Góes me mostrou as fotos, senti um calafrio por todo o corpo, lembra Encarnación. Naquela época, ela estudava os casos de animais mortos em circunstâncias misteriosas nos Estados Unidos e América Central. Conforme analisava cada uma das sete fotos coloridas e de dramática realidade, vinham à minha mente as imagens que todos nós conhecemos, de animais mutilados de forma ainda inexplicável nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. A semelhança entre os cortes e ferimentos no cadáver e os cortes apresentados nestes animais mutilados era impressionante, afirma.
Encarnación sabia que estava diante de um caso inédito no mundo e decidiu levar as investigações adiante. A primeira pista foi fornecida por Marques, o perito criminal que entregara as fotos a Góes. Ele me passou as coordenadas e um número de telefone para que pudesse dar início à investigação, conta. Ela ligou imediatamente para o número do telefone fornecido por Marques e quem atendeu foi o próprio José Roberto Cuenca, promotor de Justiça e responsável pelo processo criminal sobre o caso.
Para minha surpresa e alegria, o doutor Cuenca ofereceu-se para ajudar em minha pesquisa em tudo o que fosse possível. No dia seguinte ele deu início a uma intensa procura para tentar localizar o processo, já arquivado, do caso. Isso era tarefa difícil, pois não se recordava do número do mesmo que, para dificultar ainda mais, constava nos registros policiais paulistas como de pessoa desconhecida, conta. Dois meses depois o processo caía em suas mãos.
O processoNas páginas iniciais do processo o delegado de polícia encarregado do inquérito falava vagamente do encontro de um corpo mutilados por urubus. A mesma versão era corroborada pelo boletim de ocorrência que fez o primeiro registro do caso. Mas o laudo necroscópico, anexado nas páginas finais, era um documento aterrador.
Ele se baseava quase inteiramente na descrição de seis fotos do corpo mutilado. Abaixo a descrição médica do que foi visto.
Foto 1: Podemos observar que no rosto do cadáver ocorreu a retirada de extenso pedaço da pele na parte superior e inferior das mandíbulas produzida por instrumento cortante. Remoção do pavilhão auricular apresentando corte em bisel (oblíquo) e remoção das partes moles. Remoção parcial do pavilhão auricular esquerdo e com sinais de reação vital. Enucleação dos globos oculares com restos de sangue nas cavidades oculares. Remoção da cavidade oral, faringe e orofaringe.
Foto 2: As regiões axilares direita e esquerda apresentam uma solução de continuidade circular com diâmetro de 4 cm e margens uniformes com sinais de reação vital e remoção das partes moles. A vítima sofreu feridas incisas superficiais e infinitas produzidas por objeto cortante em toda a superfície anterior: tórax, abdomem, membros superiores direito e esquerdo, membros inferiores direito e esquerdo. Os músculos do peito se encontravam rompidos e soltos no subcutâneo.
Foto 3: A massa muscular do membro superior direito se acha separada da articulação e deslocada até o terço próxima do braço direito e também se evidencia no antebraço esquerdo
Foto 4: Enucleação da cicatriz umbilical apresentado circular com aproximadamente 3 cm. O abdomem se acha bastante deprimido.
Foto 5: Incisão alargada de formato elíptico com diâmetro de 3x1,5 cm na prega iguinal, esquerda. Remoção da bolsa escrotal. Incisão ampla ovaiada junto ao períneo e indicativo da intenção de reproduzir um órgão feminino ou de remoção do pênis. Musculatura direita e esquerda retirada do terço proximal.
Foto 6: Remoção do ânus com ampla incisão de formato alargado, ovalado e diâmetro com cerca de 15x8cm. Ferida perfurante com diâmetro de 2 cm no espaço interdigital do segundo e terceiro pedodáctilo de ambos os pés.
Por fim, o laudo necroscópico conclui:
Observamos remoção das regiões orbitárias direita e esquerda, cavidade oral, faringe, orofaringe, região cervical, região axilar direita e esquerda, abdomem, pelvis, região iguinal direita e esquerda.
Através de incisão bimastoidea-vertical e rebatimento do couro cabeludo e da abertura da cavidade segundo técnica de Griesinger, observamos: calota craniana íntegra, edema cerebral.
Remoção da musculatura intercostal a nível de segundo, terceiro, quarto e quinto espaços intercostais esquerdos. Na cavidade abdominal e quadril ausência de órgãos com remoção de todas as vísceras abdominais, evidenciando arrancamento dos órgãos e com reação vital. Na exploração do membro superior direito e esquerdo e membro inferior direito e esquerdo observamos incisão dos músculos dos braços direitos e esquerdo e músculos direito e esquerdo com posterior arrancamento de tecido.





