Mário CésarDanos moraisMaria José, tricampeã de musculação: denúncia contra boateO delegado-adjunto do 1º Distrito Policial de Londrina, Algacir Antônio Ramos, abriu inquérito para apurar acusação de injúria e difamação contra o dono, um funcionário e um cliente da boate Club Albatroz, localizada na rua Rebouças, esquina com avenida Tiradentes, região central de Londrina.
A vítima, a atleta Maria José Baladelli, tricampeã brasileira de musculação (categoria master), foi ouvida ontem pelo delegado. Algacir já marcou o depoimento de dois dos acusados para os dias 19 e 20 de janeiro.
Maria José contou que na madrugada do dia 14 de dezembro foi até a boate, acompanhada por uma amiga, depois de ter sido convidada por um dos frequentadores. Era aproximadamente uma hora da madrugada. Ela pagou ingresso, entrou no local e sentou na mesa em que o rapaz estava. A mesa também tinha outras pessoas, que estranhamente se levantaram pouco tempo depois que ela chegou. Quando a atleta ficou sozinha, começou a confusão.
‘‘O garçom veio até a mesa e começou a retirar as bebidas que estavam lá, para levar para outro lugar. Pedi uma tônica e ele não respondeu’’, lembra. Instantes depois, o garçom voltou à mesa, pegou outras bebidas, e ela novamente pediu a tônica. ‘‘Aí ele falou, com ar de deboche, que era para eu sair dali, que eu estava sentada numa mesa que não era minha. Apontei quem tinha me convidado e ele disse, então, que o dono da mesa, uma outra pessoa, não queria travesti ali.’’
Maria José disse que, nervosa com a ofensa, quebrou um isopor de gelo que estava na mesa. O garçom, no ato, a agarrou pelos pulsos e a arrastou para fora do lugar. O tumulto chamou a atenção de toda a boate. ‘‘Pedi para ele me soltar, que eu sairia sozinha, mas ele só dizia ‘rua, rua’. Perto da porta, ele me jogou na parede, me segurou de novo e me jogou para fora.’’ Ela diz também que até poderia ter tentado reagir à agressão, mas não tinha intenção de brigar.
A atleta conta que, na confusão, muita gente que estava na boate e que a conhecia tentou argumentar com os responsáveis. Maria José resolveu ficar do lado de fora da boate e esperar alguma satisfação. Algum tempo depois, o dono da boate foi para fora. ‘‘Todo mundo começou a cobrá-lo e ele acabou pedindo desculpas. Mas eu queria que ele se retratasse em público, lá dentro, e ele se recusou’’, conta.
‘‘Isso me deixou marcada. Sou uma atleta e mesmo que fosse um travesti mereceria mais respeito. Não bebo, não estava fazendo nada e não poderia ser tratada daquele jeito. Agora não tenho tranquilidade nem para trabalhar. Acho que sempre dei orgulho para Londrina, nunca deixei um rastro sujo. Isso não poderia acontecer.’’
Além do inquérito policial, Maria José também contratou um advogado para uma ação cível contra os três acusados pedindo indenização. A ação será de reparação por danos morais.
O responsável pela boate Albatroz, Sandro Omar Scholze, prestará depoimento na terça-feira, às 8h30. Segundo ele, a atleta não foi confundida com travesti, como ela alega. ‘‘O garçom a serve desde a época do Carinhoso, há seis anos. Não tem como confundi-la.’’
Segundo sua versão, Maria José se sentou numa mesa que já estava ocupada. As pessoas estavam dançando e pediram ao garçom para informá-la que a mesa estava cheia e que era para ela procurar outro local para se sentar. ‘‘Ela ficou irritada e deu um murro na mesa. Então o garçom pediu para que ela deixasse a Casa. Ela saiu sem tumulto.’’
Maria José Baladelli tem 46 anos e dois filhos, de 19 e 20 anos de idade. Ela nasceu em Ourinhos, interior de São Paulo. Começou a praticar musculação ainda com 15 anos. ‘‘Mas nunca pensei que fosse chegar tão longe’’, observa. Em 1994, quando já morava em Londrina, ela ganhou o campeonato estadual de musculação. No mesmo ano, e nos dois anos seguintes, foi a vencedora também do campeonato nacional, na categoria master (mais de 35 anos). ‘‘Em 96 o nível das competidoras estava muito forte, até achei que não fosse ganhar’’, lembra. ‘‘Mas deu tudo certo.’’ A atleta se prepara agora para o campeonato mundial da categoria.

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