Inocentados, pais adotivos têm de volta o bebê Lucas
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terça-feira, 31 de dezembro de 1996
Célia Baroni 
O bebê Lucas Souza da Silva, adotado de forma irregular em Dourados (MS), no início de novembro, voltou no último domingo para a casa dos pais adotivos, o casal londrinense Edvaldo e Márcia Ferreira. A busca e apreensão da criança havia sido determinada pela Justiça do Mato Grosso do Sul, no dia 9 de dezembro, por suspeita de tráfico de crianças. Edvaldo e Márcia moram no conjunto Ouro Branco (zona sul).
Comprovada a inocência e boa fé por parte do casal, o juiz da 3ª Vara Criminal de Dourados, João Adolfo Astolfi, decidiu devolver Lucas aos pais adotivos. Quando a Polícia Federal apareceu em casa para buscar nosso bebê, quase morremos de desgosto. Apagamos todas as luzes que enfeitavam e casa e decidimos que só voltaríamos a acendê-las quando ele retornasse. Deus realmente nos pôs à prova. Mas agora só temos a agradecer a ele e a todos que nos apoiaram e ajudaram nos momentos mais difíceis, acredita Edvaldo.
A mãe biológica da criança já havia manifestado oficialmente a vontade de que Lucas permanecesse com o casal. Ela lavrou em cartório a doação do bebê a Edvaldo e Márcia. No decorrer das investigações, ao ser ouvida, ela afirmou à Justiça que, se Lucas não fôsse devolvido ao casal, ela pediria a criança de volta e a entregaria pessoalmente a Edvaldo e Márcia.
A boa notícia, porém, não veio a tempo para o Natal. O juiz Astolfi entrou em contato com o casal na última quinta-feira, informando que as investigações haviam terminado e que, se quisessem, poderiam buscar a criança. O juiz disse que não precisávamos ter pressa, mas eu respondi para me dar só o tempo de abastecer o carro e chegar até lá, conta. Na manhã de sexta-feira, o casal assinava, no Fórum de Dourados, a guarda provisória.
Edvaldo acrescenta que, até o telefonema do juiz, eles ainda viviam a incerteza e tinham medo de não ter Lucas de volta. Ficamos revoltados quando fomos acusados de tráfico, e estávamos dispostos a tudo para ter nosso filho de volta, mas a insegurança é inevitável, recorda. Tanto Edvaldo quanto Márcia chegaram a ficar doentes com o choque da retomada de Lucas.
A atitude da Justiça de Dourados, no entanto, estava baseada na investigação da enfermeira que intermediou a adoção de Lucas. A Justiça suspeitava que a enfermeira estaria cobrando pelo serviço, caracterizando o tráfico. As investigações sobre a enfermeira continuam. Caso fique comprovado o crime, ela será indiciada e responderá a processo.
Sabendo do retorno do bebê, parentes e amigos de Edvaldo e Márcia não param de visitar o casal para parabenizá-los. Não deu tempo nem de desfazer as malas. O importante é que ele está aqui com a gente e agora ninguém mais vai levá-lo, diz Márcia. O pai garante que Lucas reconheceu sua casa e seu berço. Vocês tinham de ver a felicidade dele quando o deitamos no berço. Ele olhava tudo e sorria. Pela primeira vez ele dormiu tranquilo a noite toda.
A avó de Lucas, mãe de Edvaldo, Zildete Santos Ferreira, 54 anos, deixou a casa no jardim Bandeirantes e, aproveitando as férias da Universidade Estadual de Londrina, onde trabalha, se mudou para a residência do filho. Eu vi o sofrimento deles e agora quero compartilhar a felicidade de ter meu neto de volta, afirma. Ela diz que nunca perdeu a esperança de ver Lucas. Deus não ia deixar que uma criança tão amada ficasse longe da sua família, acrescenta. Zildere tem 15 netos e uma bisneta.
Agora, Edvaldo e Márcia se preparam para enfrentar a maratona de todos os pais. Lucas nasceu perfeito mas tem duas hérnias: uma umbilical e outra na virilha, que precisam de uma cirurgia. Eles já haviam consultado um pediatra no início da adoção, mas tinham sido aconselhados a aguardar alguns meses até que ele ficasse mais resistente.
Com as mudanças e viagens decorrentes das dificuldades da adoção, o estado da saúde de Lucas piorou. Vamos esperar apenas a passagem do ano para poder marcar a cirurgia. Até lá, os pais têm de evitar que ele chore para não forçar a hérnia. Ele já é o mimo da casa. Agora, então... As luzes de Natal da casa de Edvaldo e Márcia foram acesas e eles prometem comemorar o Ano Novo em dobro: para compensar o 25 de dezembro triste e festejar o filho.


