Inglês sugere ‘guardiões’ para áreas
Mariela de Castro Santos
Marcelo AlmeidaRod Hackney, o arquiteto dos pobres: ‘‘Não é um projeto com resultados da noite para o dia. Seriam precisos 20, 30 anos para que a área tivesse uma ocupação ordenada’’Difícil agradar a gregos e troianos, ou, no caso, ambientalistas e população de baixa renda. A ocupação organizada e legal de áreas de preservação ambiental, especialmente os mananciais que abastecem Curitiba, atiça, de um lado, os protestos dos defensores da natureza e, de outro, a pressão dos que, saídos do campo, alojam-se no primeiro terreno vago que encontram perto da cidade.
A polêmica faz as dúvidas começarem a pipocar. As respostas nem sempre estão na ponta da língua. ‘‘Não é um caso fácil de resolver. Essas pessoas não vão sair de lá sem a garantia de que serão alojadas em um lugar melhor’’, avalia o arquiteto inglês Rod Hackney, um especialista em questões de habitação envolvendo populações de baixa renda. Na Inglaterra, onde mora, ele se dedica a recuperar áreas urbanas degradadas, consideradas impróprias para habitação. Feito por poucos mas destinado a muitos, o trabalho de Hackney foi apelidado não por acaso de ‘arquitetura dos pobres’.
Negociar com os ocupantes das áreas preservadas é o primeiro passo, segundo o arquiteto. Ele não critica a ocupação dos mananciais, desde que haja poucas pessoas morando na área. ‘‘Não adianta derrubar as casinhas com tratores e achar que a área está livre - no dia seguinte eles levantam tudo de novo’’, diz. A maior parte dos invasores deveria ser remanejada para outro local - com melhores condições de moradia. Os que insistissem em ficar seriam transformados em espécies de ‘guardiões’ da natureza, com a obrigação de não poluir os rios e impedir que novas famílias se instalassem na área.
‘‘Não é um projeto com resultados da noite para o dia. Seriam precisos 20, 30 anos para que a área tivesse uma ocupação ordenada’’, acredita Hackney. Um trabalho hercúleo, resume ele. Afinal, a força do marketing acabou atraindo para a capital uma legião de pessoas sem formação profissional, que não consegue emprego e incha o cinturão de pobreza que se formou em volta da cidade. Áreas desocupadas são alvo fácil de quem não tem um chão para morar.
Na Inglaterra, os fazendeiros que têm terras em áreas de preservação são pagos pelo governo para não utilizar o terreno para plantação ou criação de animais. Em Nova Delhi, na Índia, uma ‘máfia’ de proprietários de terras até estimula as invasões. Depois, pede ao governo dinheiro para expulsar os pobres e construir casas para os ricos.

mockup