Inglês prega educação contra violência
Em Newcastle,
apenas dois dos
300 policiais
andam armados
Marcelo AlmeidaJohn Mottram: ‘‘O papel da polícia é o menor no processo’’
Um grupamento de 300 policiais que não dispara um tiro sequer desde 1840 e em que apenas dois policiais podem usar armas. Essa é apenas uma das qualificações da corporação sob o comando de John Mottram, superintendente da polícia de Newcastle under Lyme, cidade da Inglaterra com 120 mil habitantes. Mottram chegou a Curitiba através do Rotary Internacional para visita de 42 dias, período que irá conhecer a cidade e também a polícia paranaense.
Na cidade inglesa sob sua responsabilidade, a polícia atende cerca de 10 mil ocorrências por ano, das quais mil são agressões familiares. Os casos mais comuns são ainda furtos cometidos por menores. Todos os policiais andam desarmados, exceto dois, que circulam pela cidade em duas viaturas. Os policiais sequer aprendem a atirar, exceto os 50 homens do grupo tático, que atuam como a SWAT americana.
A coorporação está dentro das orientações da Organização das Nações Unidas (ONU), que estabelece como ideal a proporção de um policial por cada 500 habitantes. Ali, é um policial para cada 480 habitantes e o salário é de US$ 44 mil por ano. No Brasil, como é o caso de Curitiba, existe um policial para cada mil habitantes. Ontem, ele assistiu à parada semanal no quartel da PM em companhia do comandante-geral Luiz Fernando de Lara. Abaixo trechos da entrevista:
Folha do Paraná - O que é preciso fazer para a polícia ser eficiente e diminuir a violência?
John Mottram - A polícia representa só uma parcela do processo. A sociedade deve desenvolver seu modo de viver satisfatório, sem desemprego, criar uma situação estável à população. É um trabalho que deve integrar governo, sociedade, sendo o papel da polícia o menor. A educação começa com os pais em casa, depois com a participação da escola. Os jovens vão aprender a se comportar. E a venda de bebidas alcoólicas no nosso país também é muito controlada.
Folha - O álcool aqui agrava a violência?
Mottram - No Brasil é importante que se faça algo para que o álcool não seja tão acessível. Para nós é um absurdo uma garrafa de pinga custar US$ 1,00. Na Inglaterra custa 10, 20 vezes mais.
Folha - Aumentar o número de policiais nas ruas inibe a violência?
Mottram - Não. A polícia não deve declarar guerra contra a população nem criar clima de hostilidade. Não se deve ter essa idéia de repreensão.
Folha - Qual foi a sua impressão do Brasil em relação à polícia e ao crime?
Mottram - Aqui a questão ainda é política. É preciso fazer muito nas áreas de saúde, da educação, dar empregos para garantir meios de vida digna à população. É uma missão social. Quando se fala em combate à violência, a polícia, ela sozinha, é morta, não representa nada.
Folha - O Brasil pode chegar a ser uma Inglaterra na área da segurança pública?
Mottram - Se quiser pode, sim. Não é do dia para a noite. Nós levamos mais de mil anos para chegarmos onde estamos. Foi um trabalho secular na área do lei do Direito, da democracia, das estruturas para a formação das instituições. (E.E.S.)

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