Luciana Pombo
De Curitiba
O preconceito, a discriminação e a falta de apoio de familiares e amigos ainda são os principais problemas enfrentados pelos portadores do vírus da Aids. Mesmo com as campanhas educativas realizadas por entidades não-governamentais e o crescente índice de casos registrados na região Sul do Brasil, a maioria das pessoas que têm Aids perde o emprego, os amigos e – muitas vezes – até a família.
Entrevistados pela reportagem da Folha, os portadores do vírus HIV não quiseram ser identificados. Eles aparecerão na reportagem com nomes fictícios para preservar suas identidades. ‘‘O preconceito existe e é evidente. A gente morre quando sabe que é portadora da Aids e tem que aprender a viver, com ou sem o apoio de familiares e amigos’’, conta Melisa, dona de casa de 52 anos.
Melisa descobriu que tinha Aids há um ano. Teve o apoio dos seus dois filhos, mas teve que conviver com o desprezo e a rejeição de três irmãos e alguns amigos. ‘‘Descobri por uma casualidade. Estava com problemas de estômago e tentavam descobrir por que eu estava piorando. Não conseguiam. Decidi fazer o exame sozinha, por brincadeira’’, diz. Melisa é bissexual, separada e tem três netos. Ela conta que não sabe como pegou a doença, mas admite que teve relações sexuais com homens e mulheres, sem preservativo. ‘‘Não tenho medo da morte, sei que ela virá de qualquer forma. A morte para mim é algo natural. Tenho apenas medo do abandono’’, afirma.
O mesmo sentimento é compartilhado por Vanessa, travesti, de 38 anos. Há dez anos, ela descobriu que estava com Aids e procurou valorizar sua auto-estima. ‘‘Trabalhar com grupos de conscientização sobre os riscos da doença fez com que eu recuperasse minha auto-estima e tivesse forças para continuar trabalhando. Ajudar aos outros foi a minha própria ajuda’’, alega.
Vanessa descobriu que estava com Aids quando se prostituía pelas ruas da cidade. ‘‘Não sei quem foi o transmissor da doença e nem teria como saber. Naquela época, a gente quase não usava preservativo’’, conta. Ela teve a sorte de a doença não ter se manifestado e – até hoje – ela não precisa tomar medicamentos. ‘‘Nunca tomei nenhum medicamento, meu organismo é bom’’, diz.
Um dos conselheiros do Conselho Regional de Serviço Social e membro da Câmara Técnica de Ética e Cidadania, Silas da Silva Moreira, disse que o preconceito existe em toda parte. ‘‘Recebemos reclamações semanais de maus-tratos no trabalho ou no convívio familiar. Atuamos para tentar mediar os problemas e evitar ações judiciais’’, diz Moreira.

mockup