Infância perdida para o trabalho doméstico
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terça-feira, 16 de agosto de 2011
Silvana Leão <br> Reportagem Local 
Aos sete anos, uma garota foi retirada da escola para ficar em casa cuidando do irmão caçula, um bebê de menos de dois anos. Outra menina, esta de cinco anos, levou mordidas da própria mãe e foi espancada porque não dobrou as roupas que já havia lavado e recolhido do varal. Estes são apenas alguns dos casos mais recentes ocorridos em Londrina - e que chegaram até as autoridades - de exploração de crianças dentro de casa. Elas são as tristes protagonistas de um costume cruel e secular, que quase sempre vem acompanhado das mais diversas formas de violência.
Como quase sempre acontece sob a camuflagem da rotina familiar, praticamente não há estatísticas do número de crianças e adolescentes que são responsabilizados pelo excesso de tarefas domésticas. Um dos poucos retratos desta realidade de difícil mapeamento foi feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2006, por meio do estudo denominado Aspectos Complementares de Educação, Afazeres Domésticos e Trabalho Infantil, um suplemento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). De lá para cá, nenhum outro trabalho tão completo foi realizado na área.
A pesquisa mostrou que, naquele ano, quase metade (49,4%) das crianças e adolescentes realizava afazeres domésticos, o que correspondia a um contingente de 22,1 milhões de pessoas. Os dados mostram ainda que as atividades dentro de casa eram destinadas com maior frequência e intensidade às meninas. Na faixa etária de 5 a 17 anos, enquanto pouco mais de um terço (36,5%) dos homens cuidavam dos afazeres domésticos, no caso das mulheres a proporção era de 62,6% - situação que se repetia em todas as faixas etárias.
De acordo com o levantamento do IBGE, a participação de crianças e adolescentes em afazeres domésticos era maior nas regiões Norte (54,1%) e Sul (54,5%), enquanto o Sudeste apresentava o menor percentual (45,2%). Já para as crianças de 5 a 9 anos, o quadro era bastante diferenciado entre as regiões, com o Sudeste e o Sul apresentando, respectivamente, o percentual mais baixo (21,2%) e o mais alto (30,3%).
O número de horas habitualmente dedicadas por semana a afazeres domésticos variou sensivelmente nos diferentes Estados, sendo que o Maranhão apresentou os maiores índices. Crianças e adolescentes com idades entre 5 e 13 anos trabalhavam, em média, 12 horas por semana para manter a casa em ordem, enquanto na faixa etária que vai dos 14 aos 17 anos a média era de 19 horas semanais. Alagoas era o Estado em que crianças e adolescentes mais trabalhavam, com médias de 11 horas por semana (de cinco a 13 anos) e 17 horas por semana (14 a 17 anos).
A psicológa Wilma Silva Ribeiro, integrante do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, explica que um dos problemas de impor muito cedo responsabilidades às crianças é que, ao serem trazidas precocemente para o mundo adulto, elas passam a desejar também outros direitos e atributos deste universo, como aqueles ligados à sexualidade. ''São crianças que têm suprimidas etapas importantes de sua vida, o que as torna adolescentes e adultos mais estressados'', explica Wilma.
Ela lembra de uma frase do escritor Antoine de Saint-Exupéry, que retrata como estas crianças se sentirão no futuro: ''Todas as pessoas grandes foram pequenas, mas nem todas se lembram disso''. Para esta parcela da população, impedida de fazer a mediação com a vida por meio das brincadeiras, a ideia de infância fica perdida - é algo que se atravessa, mas não se vive. ''São crianças que, se em determinada circunstância tiverem a oportunidade de brincar, não saberão como fazê-lo.''
Wilma ressalta, porém, que o hábito de dar pequenas responsabilidades da casa para os filhos, sempre de acordo com a idade de cada um, é saudável e necessário para o amadurecimento da criança. Tarefas como arrumar a própria cama, guardar os brinquedos ou objetos pessoais, levar o cachorro para passear, devem ser incentivadas desde cedo. ''É importante para as crianças aprenderem a cuidar das próprias coisas e participarem da vida em família, mas é preciso cuidado para que elas não recebam responsabilidades que são dos pais. É preciso bom-senso'', recomenda Wilma.
O sinal de alerta deve ser aceso, de acordo com a psicóloga, quando o tempo disponível para brincadeiras e para o convívio com a família é sacrificado em função do excesso de atividades, que também podem ser cursos, esportes. ''Tudo que é oferecido em excesso não é saudável. É preciso respeitar a dinâmica das crianças'', resume a psicóloga.


