O ''brinquedo'' de aço reluz na mãozinha do garoto: na mira da arma, Elizabete (nome fictício) teme que ele confunda a realidade com um videogame e atire para valer. De rosto angelical e voz infantil, o assaltante não pode ter mais do que 10 anos, conclui a vítima. Os mais velhos da quadrilha ditam as ordens e avisam: o revólver é de verdade e ''o menininho é um terror''.
Parece um pesadelo ou uma cena de ''Cidade de Deus'', filme brasileiro que expôs a tenebrosa realidade das favelas cariocas onde até crianças são cooptadas por traficantes. Mas aconteceu em Londrina. Somado aos dados do Conselho Tutelar, o episódio é um perigoso indicativo dos rumos que a criminalidade pode estar tomando no município.
''Não acreditei quando vi aquele menino tão bonitinho, que deveria estar na escola, correr pela casa recolhendo notebooks, playstations, celulares. Pensei: meu Deus, os adultos estão levando nossas crianças para esse mundo de maldição'', diz Elizabete, que preferiu não ter a identidade divulgada. Dona de uma pensão na região do Lago Igapó 2, ela foi assaltada recentemente por dois jovens aparentando ter 18 anos e um terceiro que, assegura, era uma criança. O crime ocorreu no meio da tarde.
Além de buscar objetos de valor na pensão, a certa altura o menino teria sido encarregado de vigiar as vítimas - cerca de 10 pessoas, entre familiares da proprietária e hóspedes. ''Deram a arma na mão dele e falaram para meter bala se alguém se mexesse. Ele ficou olhando sério para nós, dava para ver que se sentia poderosíssimo.''
A ocorrência não chega a surpreender a conselheira tutelar Melissa Fernanda Benicio Faria, do Conselho Centro. Em fevereiro do ano passado, a própria Melissa relatou à FOLHA o caso de uma criança londrinense de apenas três anos que era empregada como ''aviãozinho'' (uma espécie de leva-e-trás) por traficantes. ''A família toda daquele menino estava envolvida no crime. Conseguimos dar um encaminhamento para o caso, mas sabemos que não é o único. As crianças são usadas no tráfico em Londrina, isso é fato'', atesta.
Dados obtidos junto às três regionais do Conselho Tutelar (Norte, Sul e Centro, que também responde pelas zonas Leste e Oeste) apontam que desde julho de 2005, início da atual gestão dos conselheiros, até dezembro do ano passado, foram registrados 63 atos infracionais praticados por criança. As estatísticas não trazem a tipificação dos atos, mas podem incluir desde pequenos furtos a agressões e roubos. Os relatórios dos conselhos também indicam que, somente no ano passado, ocorreram 87 casos de envolvimento de crianças com o tráfico de drogas no município.
Antes de completar 12 anos, porém, o indivíduo não é considerado criminoso, não pode responder a inquérito e nem ser julgado. Pela lei brasileira, a criança é ''inimputável''. O delegado do Adolescente de Londrina, Wilian Douglas Soares, afirma que esporadicamente recebe crianças abordadas por policiais militares ao ser flagradas cometendo atos infracionais. Mas assim que a idade é confirmada, elas são encaminhadas para o Conselho Tutelar e nenhum procedimento policial é instaurado.
''Vez ou outra lidamos com jovens de até 13 anos, mas a maioria esmagadora dos infratores ainda oscila dos 14 aos 17'', sublinha o delegado. O diretor do Centro de Sócio-Educação 1 (antigo Ciaadi), Jorge Higarashi, faz observação semelhante. ''Só temos internos com idade acima de 12 anos, e ainda assim a maioria tem entre 15 e 17 anos'', diz.
A promotora da Vara de Infância e Juventude de Londrina, Édina Maria de Paula, observa que casos mais graves ainda não são rotineiros entre crianças, mas que tem notado um aumento. ''Está caindo a idade para cometer infrações. Os maiores estão pegando crianças, drogando-as e levando-as para o crime'', afirma. Édina acrescenta: a criança com uma arma na mão é muito mais perigosa do que um adulto. ''Ela não vai pensar duas vezes antes de puxar o gatilho.''

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