O desempregado José Alves de Souza mora há um ano e meio no Jardim Nossa Senhora da Paz (zona oeste). Quando decidiu se mudar para lá, tomou a difícil escolha de expôr seus cinco filhos à realidade de um dos bairros mais violentos e pobres de Londrina. ''A preocupação é grande, mas a situação melhorou um pouco depois que colocaram mais polícia aqui. Um grande problema do bairro é a falta de uma área de lazer, uma quadra, um parque. A falta do que fazer é um convite pro tráfico entre os jovens'', conta Souza.
Os dois filhos mais novos, Diego, 8 anos, e João, 6 (ambos nomes fictícios, usados para preservar a identidade das crianças), convivem com o medo. João lembra da vez em que, quando voltava da missa com a família, viu o corpo de um rapaz de 15 anos morto a tiros. ''Ele era meu amigo, brincava com a gente na rua'', lembra.
Diego também viu o corpo. ''Tenho medo de tiro'', afirma. O menino teve outro contato com a violência um amiguinho deixou de ir à aula por vários dias há alguns meses. ''Ele levou um tiro aqui, ó'', diz, apontando para a palma da mão direita. ''A bala atravessou pro outro lado''.
''Existe o medo, mas tem muita gente boa aqui. O bairro acabou estigmatizado como lugar de gente ruim. Há alguns meses, fui fazer um serviço e o sujeito desistiu quando eu disse onde morava'', conta Souza. Além dos traficantes e das balas perdidas, as crianças também temem a polícia, que ficou marcada como vilã antes da intervenção no bairro, há três meses. ''Quando vejo a viatura, corro contar pra minha mãe'', conta Diego, sem explicar porquê.
Temerosos de muita coisa, os meninos tocam a vida. Tímidos, só abrem o sorriso quando descrevem o que mais gostam de fazer. ''Ah, eu ando de skate, me balanço na corda, jogo bola. Mesmo com medo, eu gosto daqui'', conta Diego. Ele diz que ainda não sabe o que quer ser quando crescer. Que o futuro lhe permita a escolha.

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