Indústrias poderão pagar por alcoolismo
Emerson Cervi
De Curitiba
Acontece no próximo sábado, o 1º encontro de alcoólatras e famílias, promovido pela Associação de Proteção do Alcoólatra e Família do Paraná. O evento vai marcar a fundação oficial da Associação, que pretende questionar judicialmente as indústrias e bebidas alcoólicas, numa ação civil que pode chegar a R$ 1 bilhão. Não somos contra a bebida alcoólica, mas queremos que as indústrias se responsabilizem por parte dos danos que causa aos dependentes, disse o presidente da Associação, Benedito de Oliveira Carneiro, 42 anos.
O encontro será no auditório do edifício Humberto de Alencar Castelo Branco, no Centro Cívico, a partir das 8 horas. Nesse dia será apresentada a iniciativa de uma ação coletiva contra a confederação das indústrias de bebida. Queremos algo parecido com o que as vítimas do tabaco nos Estados Unidos estão fazendo com a indústria do cigarro naquele país, conta.
Foi estabelecido o valor inicial de R$ 1 bilhão para uma ação civil por perdas e danos. É um número hipotético, na verdade esperamos que os empresários financiem programas preventivos e centros de tratamento a dependentes. Só as cervejarias faturaram R$ 18 bilhões no Brasil em 1998.
O próprio Benedito Carneiro é uma vítima do alcoolismo. Aos 42 anos e há 6 meses sem beber, ele contabiliza os prejuízos causados pelo álcool em sua vida. Casei duas vezes e hoje sou divorciado, tenho quatro filhos revoltados comigo, fali várias empresas, em outras fui demitido por justa causa e em mais da metade da minha vida tenho sido uma pessoa anti-social, conta. Só percebi que precisava de ajuda quando pensei em suicídio. Comecei a beber cerveja, depois passei a destilados e como necessitava cada vez mais de quantidades maiores, passei a tomar qualquer coisa.
Ele conta que por várias vezes tentou parar de beber. Consegui ficar abstêmio por cinco anos, mas quando voltei foi pior. Na opinião de Benedito Carneiro, os tratamentos comuns contra o alcoolismo não conseguem recuperar os dependentes. Segundo ele, para deixar de beber, muitas vezes o alcoólatra termina dependente de remédios. Benedito Carneiro tentou vários tratamentos. A nossa associação tem o objetivo de retomar as discussões sobre recuperação, tratamento familiar e social dos dependentes, conta.
Com o dinheiro que conseguir de órgãos públicos ou das indústrias de bebidas, os diretores da Associação pretendem custear um centro de tratamento ao alcoolismo e desenvolver ações preventivas. Ainda não se dá a atenção devida à prevenção nas escolas, por exemplo, opina.
Ao contrário dos alcoólicos anônimos, os integrantes da nova associação não pretendem se manter no anonimato. A sociedade nos vicia em público, através dos anúncios comerciais e de outras formas, por isso acreditamos que o tratamento não deva ser escondido, disse.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 13% da população mundial sofre de alcoolismo. No Brasil o índice sobe para 20%. Desse total, 15% é de homens e 5% mulheres. Mais de 90% dos dependentes encontram-se na faixa etária entre 16 e 40 anos.Encontro em Curitiba poderá determinar ação de R$ 1 bilhão de alcoólicos e familiares contra indústrias de bebidas
Mauro FrassonAÇÃOBenedito de Oliveira Carneiro, 42 anos, da Associação de Proteção do Alcoólatra e Família quer que empresas financiem programas preventivos e centros de recuperação





