Daqui a menos de um ano, 90 funcionários de uma indústria de Sertanópolis passarão a conviver num mesmo loteamento, cada um com sua família, em casas novinhas e - melhor de tudo - próprias. Eles são beneficiários de um projeto de responsabilidade social pioneiro no País, que já começa a servir de exemplo para outras empresas.
O terreno de 39 mil metros quadrados, localizado na saída da cidade, foi adquirido pela LCA Alimentos, indústria de moagem e processamento de trigo que emprega 180 pessoas. A firma investiu R$ 130 mil na compra do imóvel e mais R$ 40 mil para viabilizar o loteamento junto aos órgãos competentes. Depois, correu atrás de financiamento junto à Caixa Econômica Federal (CEF) para a construção das moradias.
''A CEF nunca havia feito uma parceria dessas com uma indústria, apenas com construtoras ou órgãos governamentais. Mas eles se interessaram pela iniciativa e criaram novas regras para encaixar esse tipo de empreendimento'', lembra Ciro Venturelli, um dos sócios da empresa. O terreno foi doado para a associação de funcionários, que tomou a frente das negociações.
Segundo o empresário, a idéia começou a se esboçar há dois anos, quando a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) lançou um conjunto de 40 casas populares em Sertanópolis. O número de inscrições passou de 1 mil, escancarando o déficit habitacional no município de 15 mil habitantes.
O moinho fez então uma enquete entre seus funcionários e descobriu que um terço deles não possuía casa própria, sem contar os que moravam com os pais. Era o caso do auxiliar administrativo Ricardo Pereira de Almeida, 30 anos, casado e pai de uma filha de dois anos. ''Gasto R$ 150 com aluguel. É um dinheiro que você paga e não tem retorno, porque a casa nunca vai ser sua'', frisa.
A empresa, que nunca havia investido num projeto social de grande porte, decidiu facilitar o acesso dos empregados à moradia. Além de investir no loteamento, promoveu um mutirão para eliminar obstáculos que poderiam impedir os mutuários de obter crédito, como dívidas no comércio. ''Demos adiantamentos de férias e dispensas para o pessoal ir atrás da regularização'', relata Venturelli.
Com rendas variando de um salário mínimo até R$ 1,7 mil, os funcionários fecharam contratos individualizados com a CEF. A zeladora que ganhava o menor salário conseguiu o maior subsídio do banco: R$ 10 mil. Os terrenos de 220 metros quadrados cada, que a preço de mercado sairiam por R$ 15 mil, custaram R$ 2 mil para os mutuários. O valor das casas varia entre R$ 24,3 mil e R$ 26,4 mil. O número de interessados foi tão grande que, ao final, a empresa teve que fazer um sorteio. Funcionários que pagavam aluguel e tinham mais tempo de serviço tiveram prioridade.
''São casas maiores (modelos de 44,78 e 72,11 metros quadrados) do que o padrão popular, cuja estrutura permite a ampliação sem precisar fazer aqueles 'puxados'. Outro diferencial é que elas serão entregues com laje, piso, azulejo, janelas e portas'', valoriza o engenheiro civil da LCA, Flávio Granado. As plantas são flexíveis e os proprietários podem acompanhar toda a construção, escolhendo materiais e cores.
Venturelli acredita que a iniciativa terá reflexo na qualidade do trabalho na empresa, a partir da satisfação dos empregados. ''O maior bem que a pessoa pode querer é uma moradia, então conseguir uma casa própria tem um impacto psicológico. O consumidor também passa a ver a empresa de forma mais positiva'', conclui.
As obras no terreno já começaram e a previsão é que fiquem prontas em oito meses - um prazo muito curto se comparado aos dos loteamentos feitos por órgãos públicos. O projeto já inspirou outra indústria de Sertanópolis, que adquiriu uma área para 88 unidades ao lado do terreno do moinho. Tomara que a moda pegue.

mockup