Érika Pelegrino
De Londrina
O que muitos professores consideram indisciplina do aluno pode ser apenas um sintoma de que a escola precisa mudar a forma como vem tratando a educação. Por definição, indisciplina é uma questão de desrespeito às regras estabelecidas pelas escola. A questão está na forma como estas regras foram estabelecidas: coercitivamente ou dentro de princípios democráticos?
O professor da Universidade de Campinas (Unicamp/SP), Ulisses Ferreira de Araújo, mestre em educação e doutor em psicologia escolar, vem há anos estudando o tema. Seu trabalho é voltado para ‘‘a compreensão do fenômeno da indisciplina e para propostas práticas de intervenção em escolas públicas’’. Atualmente tem dois projetos de intervenção em duas escolas de municípios próximos à Campinas (SP).
Ele parte do princípio de que a indisciplina é um sintoma de que há autoritarismo na escola e de que isso precisa ser mudado. ‘‘A indisciplina não é necessáriamente imoral’’, afirma. Durante o curso que ministrou na 1ª Jornada Paranaense de Educação, ele falou sobre seis pontos que devem ser avaliados na educação e apontou alternativas.
A questão do conteúdo escolar foi a primeira a ser levantada. Segundo ele é preciso repensar o atual conteúdo incluindo os chamados temas transversais – ética, meio ambiente, sexualidade, cidadania – que estão relacionados ao cotidiano do estudante, para que o aluno veja função naquilo que está aprendendo.
A metodologia das aulas é outro item a ser repensado se o objetivo é fazer com que o aluno tenha interesse em aprender e, consequentemente, diminua a violência nas escolas. Ao contrário de aulas expositivas, o conceito propõe aulas mais dinâmicas, interativas. Em suas próprias aulas, Ulisses Araújo, afirma que desenvolve atividades diferentes ao mesmo tempo. ‘‘Num mesmo espaço é possível desenvolver atividades de acordo com o interesse de cada grupo, ao mesmo tempo’’, afirma.
A construção de valores universalmente desejáveis – solidariedade, justiça, igualdade – se amarra aos outros pontos. Ulisses Araújo explica que vivemos um processo de mudança de valores, com forte influência da mídia. ‘‘A violência é normalizada através da mídia e promove pessoas cada vez mais individualistas, que não estão preocupadas com o individualismo.’’
Na avaliação do professor, cada vez mais o Estado está pegando para si, através das escolas públicas, a incumbência de construir novos valores. ‘‘À medida que a sociedade se democratiza, percebe que não pode mais esperar que a família cumpra este papel, ou que o sujeito se conscientize’’, afirma. ‘‘A construção de valores como ética e moralidade deixa de ser de âmbito privado (família e religião) e passa ser uma questão pública. E a instituição pública mais apropriada para trabalhar estes valores é a escola.’’
Mas há resistências, como em todos os processos de mudança, conforme acrescenta. O professor resiste porque acredita que este não é seu papel. ‘‘Historicamente, a construção de valores sempre foi papel da religião através da família’’, diz.
Segundo Ulisses Araújo, a necessidade de construção destes novos valores surge com a normalização da violência imposta pela mídia, que coloca a situação nas escolas, por exemplo, fora de controle. Outro fator é a mudança da estruturação familiar, que leva o Estado, através das escolas, a assumir este papel.
‘‘Os pais estão o tempo todo fora. As crianças ou estão em frente da televisão ou estão na rua.’’ Neste contexto são as escolas que terão que se responsabilizar pela formação de um cidadão mais voltado para a ética, justiça e os ‘‘valores universalmente desejáveis’’.
A resistência dos professores precisa ser vencida através dos cursos de formação destes profissionais que terão que levá-los a repensar seus papéis e prepará-los para esta nova realidade. Ulisses Araújo afirma que isso já é uma tendência, que começou a surgir com a Lei de Diretrizes de Base (LDB), em 1996, e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de 1997, 98 e 99 que a regulamentam.
Durante muito tempo o professor usou de instrumentos autoritários para manter o controle nas salas de aula, como a avaliação. ‘‘Historicamente a avaliação é usada como elemento de coação’’, explica. ‘‘Quando o Estado determina que o aluno de 1ª a 2ª séries e de 5ª a 8ª séries não pode ser reprovado, é retirado das mãos do professor um instrumento de autoritarismo.’’
Com isso o profissional fica sem saber como agir. Na avaliação de Ulisses Araújo, numa sociedade democrática a ‘‘punição’’ pode até existir, ‘‘mas calcada em princípios de justiça e igualdade’’. O que significa que o professor terá que construir outros métodos para controlar o comportamento do aluno.
‘‘Hoje as relações mudaram. O aluno questiona, não aceita mais imposições. E é este comportamento que muitas vezes é visto pelo professor como indisciplina.’’ Aqui Ulisses Araújo amarra um outro ponto a ser repensado nas escolas: a democratização das relações interpessoais, baseadas na justiça e no respeito.
O professor afirma que se trata de um processo de democratização da sociedade como um todo. ‘‘De entender o que é respeito e que o respeito não é apenas do aluno para o professor, mas do professor para o aluno também.’’
O trabalho de Ulisses Araújo é desenvolvido através de técnicas para a construção da competência dialógica, onde ocorre a troca de informações, nada é imposto de cima para baixo. Há uma construção em conjunto – aluno, professor – daquilo que será discutido na sala de aula.
Para se obter resultado é preciso desenvolver nas pessoas o autoconhecimento, ajudá-las a conhecer suas próprias emoções e sentimentos e conhecer a sua realidade. ‘‘Por exemplo, a matemática inserida no contexto de cidadania. O aluno traz a conta de luz de sua casa para ver o quanto gasta de energia e qual é o salário do seu pai. Ele vai ver que o salário não subiu, mas que o seu consumo de energia foi maior. Estará trabalhando também a questão ambiental se estiver gastando muita energia. É uma forma de fazer o aluno se conhecer e conhecer a sua realidade.’’Opinião é defendida pelo mestre em educação e doutor em psicologia escolar Ulisses Ferreira de Araújo, da Unicamp
César AugustoFUNÇÕES REPASSADASUlisses Ferreira de Araújo: ‘‘A construção de valores como ética e moralidade deixa de ser de âmbito privado (família e religião) e passa ser uma questão pública. E a instituição pública mais apropriada para trabalhar estes valores é a escola’’

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