Índios tentam viver em aldeia de tijolos
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domingo, 30 de novembro de 1997
Luiz Taques Brasilândia 
Milton DóriaÁgua e luzAs casas dos índios são de alvenaria e madeira e têm água encanada; a CESP também construiu escola, barracão e posto de saúde, todos com luz elétrica, mas médico é raridade no lugar Uns cem anos atrás o meu povo vivia sossegado, porque tinha muita caça, pesca e mel. Não tinha nenhum invasor. A gente vivia na maior felicidade. Segundo contam meus avós, hoje eles são falecidos, nós éramos muitos, mais de duas mil pessoas. Nossos aldeamentos eram sempre por alguns dias para não acabar com todas as caças. E as caminhadas eram sempre nas margens do Rio Paraná, Rio Verde, Rio Vacaria, Rio Ivinhema, Rio Taquaruçu, Rio Casa Verde.
Ataíde Francisco Xehitâ-ha, 41 anos, é a principal liderança entre os índios ofaié, que agora moram numa aldeia de tijolos construída pela Companhia Energética de São Paulo (CESP). Os ofaié são uma nação indígena em acelerado processo de extinção.
A aldeia de 484 hectares adquirida pela companhia paulista para assentar os ofaié fica em Brasilândia (MS). Nas casas (metade alvenaria e a outra de madeira) vivem 14 famílias, mas nem todas são ofaié. Há kaiowás e brancos também.
Idioma raro As 14 famílias somam 54 pessoas. Apenas 22 falam o idioma ofaié. Além das 15 casas (uma não está ocupada), a Cesp construiu uma escola, um barracão e um posto de saúde - este ano, o médico só apareceu quatro vezes na aldeia. Os pisos das casas são de chão batido. Os fogões continuam à lenha.
A hidrelétrica de Porto Primavera que a Cesp está construindo no rio Paraná vai alagar 2.250 quilômetros quadrados nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. A formação do lago artificial para a geração de energia vai alagar uma área de 180 mil hectares no lado sul-mato-grossense e mais 40 mil hectares no lado paulista. O lago começa a ser formado no ano que vem. Até entrar em operação, a hidrelétrica terá custado perto de R$ 10 bilhões.
Como a terra onde a gente estava vai ser atingida pelas águas, eles montaram essa aldeia, explica Ataíde Francisco Rodrigues, batizado Xehitâ-ha pelos ofaié e apelidado Krengraí.
Por um período do ano - até fevereiro de 1998 - a Cesp vai fornecer cesta básica para todas as famílias que vivem na aldeia de tijolos, cujas casas contam com água encanada e posto de saúde, a escola e o barracão com luz elétrica.
A cesta básica mensal fornecida à família de Ataíde Francisco Rodrigues (formada por ele, a mulher e um filho), por exemplo, contém dois pacotes de arroz, sete quilos de açúcar, um quilo de café, cinco latas de óleo, cinco latas de leite em pó, dois quilos de farinha, três quilos de macarrão, cem gramas de alho, três quilos de farinha de trigo, um quilo de sal, oito barras de sabão, dois quilos de jabá e quatro quilos de feijão.
Isso dá para uns vinte dias, pois não temos mais nada para complementar, reclama Ataíde Francisco Rodrigues Xehitâ-ha. Faltam recursos para a gente plantar feijão, arroz, mandioca, pois na mata não tem mais frutas, nem mel, nem temos mais rios para pescar como antigamente e nem mato para caçar, o negócio vai ser partir para fazer roça mesmo.
- O que vocês vão fazer depois que acabar a cesta básica? Não sei, responde Xehitâ-ha. As 14 cestas básicas custam à Cesp, mensalmente, R$ 1.028,00. A Fundação Nacional do Índio (Funai) - segundo o veterinário e teólogo Carlos Alberto dos Santos Dutra, que desenvolve trabalho junto aos ofaié como integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) - quer tornar a área agricultável nos moldes brancos, com insumos e mecanização, conflitando com o tipo de roças de toco dos índios, que são roças de subsistência.
Autor do livro Ofaié - Morte e vida de um povo, Carlos Alberto dos santos Dutra conta que os pequenos grupos de ofaié que viviam separados, em sua maioria foram dizimados pelas frentes desbravadoras e de exploração agro-pastoris que tomaram de assalto o Oeste brasileiro. Os sobreviventes se agruparam ou por força de ação dos órgãos governamentais, ou movidos pelo instituto de sobrevivência para armar suas defesas.
Já há algum tempo os ofaié reivindicaram na Justiça Federal uma área de 1.937 hectares como parte das terras ocupadas pelos seus antepassados, onde, inclusive, estaria localizado um cemitério indígena. A área já foi demarcada administrativamente pela Funai, mas em virtude do decreto 1.775, baixado há dois anos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que permitiu aos fazendeiros o contraditório, a questão agora, encontra-se sub-júdice. Essa área está localizada ao lado da adquirida pela Cesp para armar a aldeia de tijolos.
Em 1978, os ofaié foram levados pela Funai de Brasilândia para o município de Bodoquena, no Pantanal sul-matogrossense, onde vivem os índios kadiwéu. No final de 1986, os índios decidiram retornar à Brasilândia e trouxeram à tiracolo mais problemas e um saldo de 18 mortos, o que fez a sua população reduzir-se ainda mais.
Um índio terena, 17 kaiowá e um branco e uma negra habitam a mesma aldeia de tijolos com os ofaié. Zenaide Benitez, esposa do líder Ataíde Francisco Rodrigues Xehitâ-ha, é índia kaiowá. Dois primos de Ataíde também são casados com kaiowá. Os kaiowá habitam a região da Grande Dourados e são conhecidos como os índios que se suicidam.
Severino de Souza, um outro primo de Ataíde, é casado com uma negra, Luzinete de Moraes, 26 anos. Ela diz que é filha de baiana com paulista. O casal tem três filhos. Para ajudar no sustento da família o marido trabalha como cortador de lenha nas fazendas da região.
Osmar Pereira, 47 anos, é paranaense de Londrina, casado com a ofaié Joana Coimbra Okúin-hê, 41, com que tem quatro filhos. Osmar Pereira diz que a área de 484 hectares adquirida pela Cesp é fraca para a agricultura.
No primeiro ano ainda dá umas coisinhas, mas a partir do segundo ano não dá mais nada se não colocar calcário, observa Osmar Pereira. Acontece que não há calcário na região e vai sair muito caro para a gente por causa do transporte.
Roni Leandres, batizado kaiowá de Va-verá, 64 anos, fala que ele é favorável, mas que muitos índios são contrários à aplicação de calcário na terra por considerá-la sagrada. Roni vive com a ofaié Marilda de Souza, 30 anos mãe de quatro filhos, um deles morto.
Cesariana O último filho do casal Roni e Marilda nasceu no dia 18 de agosto. No hospital de Brasilândia, a índia foi submetida à cesariana. A cirurgia ficou em R$ 225,00, mais foi preciso comprar remédios, pagar táxi e aí a conta passou dos R$ 300,00. Eu ganho R$ 120,00 de aposentadoria e não sei ainda como vou me arranjar, queixou-se.
Roni Leandres é primo de Marçal de Souza Tupã-I, líder indígena que denunciou ao papa e às Nações Unidas o extermínio dos povos indígenas. Marçal foi assassinado no dia 25 de novembro de 1983 na aldeia Campestre Ypê, localizada no município de Antonio João, entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguai.
Um fazendeiro apontado como mandante e os jagunços como matadores continuam impunes, quase 15 anos depois. Três advogados que nesse período bateram à porta da Justiça pedindo punição para os assassinos de Marçal de Souza já morreram. O gaúcho Jorge Ney morreu num acidente de moto. O londrinense Victório Constantino, de doença. E o campo-grandense Ricardo Brandão de ataque cardíaco.


