Índios se tornam alfabetizadores em curso na Fecilcam
Sid Sauer
De Campo Mourão
Durante 18 dias, 12 alunos diferentes frequentaram a Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (Fecilcam). Trata-se de um grupo de índios e descendentes que esteve na cidade aprendendo métodos de alfabetização de jovens e adultos que serão usados a partir de agora em São Gabriel da Cachoeira (AM), na fronteira com a Venezuela e Colômbia. Até o final do ano, eles deverão alfabetizar cerca de 250 pessoas, quase todos índios.
O grupo veio a Campo Mourão através do Programa Alfabetização Solidária, que faz parte do Comunidade Solidária, e encerrou o treinamento ontem. Eles moram na própria cidade de São Grabriel da Cachoeira ou em algumas das 306 comunidades indígenas espalhadas pelo município. José Coro Anhes, 37 anos, por exemplo, é da comunidade de São Francisco de Sales, na margem esquerda do alto Rio Negro, onde vivem cerca de 140 índios barés.
Agora vamos repassar o que aprendemos, conta Anhes. Filho de pai venezuelano e mãe brasileira, Anhes só usa a língua portuguesa quando sai da comunidade de São Francisco. Lá, a língua usada é o nhangatu. Como alfabetizador, ele vai ensinar índios a ler e a escrever nas duas línguas - nhangatu e português. Para chegar até a cidade de São Grabriel, Anhes leva um dia e meio - sem dormir - de barco a motor pelo Rio Negro.
Há, no entanto, comunidades ainda mais distantes da sede do município. É o caso de Assunção do Içana, de onde veio Sebastião Luís Fontes. Ele demorou dois dias e meio para chegar até São Gabriel. Fui num barco com motor de 15 hp, explica. A demora acontece porque o município tem uma área de 112 mil quilômetros quadrados (o Estado do Paraná tem 199 mil), que incluem os dois maiores picos do País - o da Neblina e o 31 de Março.
De São Gabriel até Campo Mourão, o grupo levou mais dois dias. Com exceção do trecho entre Maringá e Campo Mourão, todo o resto do percurso foi feito de avião. Não há como sair do município de carro, explica a assessora da Secretaria de Educação de São Gabriel da Cachoeira, Nazira Barbosa Batista. A cidade fica a 847 quilômetros de Manaus em linha reta. De barco, pelo Rio Negro, são 1.061 quilômetros.
Segundo Nazira, o problema do analfabetismo em São Gabriel é maior nas comunidades indígenas que não receberam a visita de missionários. Dos quase 46 mil habitantes do município, cerca de 40 mil moram nessas comunidades indígenas. 90% de nossa população é indígena, frisa Nazira. O contato com a Fecilcam começou no mês passado, quando a professora Maria José Pereira esteve no município e selecionou os 12 índios para se tornarem professores.
O processo será facilitado porque os alfabetizadores serão moradores das próprias comunidades, diz a Rosimeire Ribeiro Fraga, também descendente de índios, que vai coordenar os trabalho em São Gabriel da Cachoeira. Em 2 anos, serão alfabetizadas cerca de 2 mil pessoas e será implantado o ensino supletivo para que eles prossigam com os estudos, destaca a professora Dircélia Teixeira, da Fecilcam. -
Sem nunca ter saído de São Gabriel da Cachoeira antes, José Coro Anhes se empolgou com o curso e disse que achou Campo Mourão diferente. Ele estranhou, principalmente, o clima. Aqui faz muito frio. Da comida, ele conta que gostou, mas sentiu a falta de peixe. Nós comemos peixe todos os dias e aqui foi só uma vez.





