Mario CesarPrioridadeVoluntários do Provopar distribuem cobertores para a população de reserva indígena: pneumonia ameaça crianças da comunidadeMais de 200 famílias de índios da Reserva do Apucaraninha, em Tamarana (65 quilômetros ao sul de Londrina), receberam ontem doação de cobertores e calçados. O material foi arrecadado pelo Provopar durante a Campanha do Agasalho deste ano e a comunidade indígena foi a primeira a receber as doações. Um caminhão da Prefeitura de Londrina passou de casa em casa entregando as doações, para garantir que cada criança de até 6 anos recebesse um cobertor.
Um levantamento da prefeitura constatou que existem na reserva 450 crianças com até seis anos. O Provopar entregou 500 cobertores no local (50 foram destinados a pessoas idosas da comunidade). A assistente social do Provopar, Marilene Bernardino Ruiz, explica que todos os anos a entidade distribui cobertores, roupas e alimentos na reserva. ‘‘O início da distribuição das doações está marcada para o próximo dia 20, mas entendemos que a situação da reserva é crítica e decidimos dar prioridade aos índios’’, disse.
A Reserva do Apucaraninha é cercada por três rios e, por isso, extremamente fria. As baixas temperaturas e alguns costumes culturais dos índios favorecem as doenças respiratórias. Há 15 dias, duas crianças da reserva morreram de pneumonia. Segundo informações da equipe de saúde que atende a comunidade indígena, todas 300 crianças até 5 anos estão com gripe forte e correm o risco de ficar com pneumonia. Até ontem, quatro crianças caingangues continuavam internadas no Hospital São Francisco, em Tamarana, vítimas da doença.
Marlene de Oliveira, coordenadora do programa de atendimento à Reserva do Apucaraninha, afirmou que a doação de cobertores é importante. ‘‘A população da reserva aumentou sensivelmente no último ano com a migração de famílias de outras localidades. E muitas não têm cobertores suficientes’’, comentou. Segundo ela, o cobertor é mais aproveitado pelos índios do que as roupas. ‘‘Eles usam o cobertor dentro de casa para dormir e fora para se proteger do frio.’’
No último ano, a população da reserva passou de 800 para mil pessoas (cerca de 300 famílias). O alto índice da natalidade entre os índios faz com que a maioria da comunidade seja de crianças até seis anos (cerca de 450). Outro problema é que as crianças deixam de ser amamentadas muito cedo, porque as mães geralmente engravidam de novo. Sem o leite materno, é comum ocorrer a desnutrição, que enfraquece o organismo das crianças e expõe a doenças. No inverno, elas sofrem com as doenças respiratórias. No verão, com a diarréia.
O cacique Juscelino Vergílio elogiou o trabalho da Provopar. De acordo com ele, muitas famílias da reserva serão beneficiadas com as doações. Ele observou, no entanto, que a reserva precisa de muitas mudanças para oferecer melhores condições de vida para a comunidade indígena. Ele disse que a briga política entre Londrina ou Apucarana - que disputam a responsabilidade administrativa sobre a aldeia - está atrapalhando o atendimento aos índios.
Vergílio afirmou que as duas administrações têm se omitido sobre os problemas de falta de estrutura. ‘‘Quando a gente procura a Prefeitura de Londrina, somos mandados para Tamarana. Se vamos buscar apoio em Tamarana, mandam a gente para Londrina’’, comentou.
Quando Tamarana se emancipou, em 1996, os índios conseguiram que a Assembléia Legislativa aprovasse uma lei colocando a reserva sob responsabilidade de Londrina. A Prefeitura de Tamarana, no entanto, recorreu e a situação do Apucaraninha continua sub judice e só deverá ser definida em 1999, com a realização de um plebiscito entre a comunidade indígena. O cacique disse: ‘‘Até pouco tempo atrás, toda a comunidade queria ficar com Londrina. Hoje a situação mudou e as famílias estão divididas. A Prefeitura de Londrina não parece estar interessada em assumir a reserva’’.

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