Índios realizam sonho da nova terra
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terça-feira, 04 de março de 1997
Antônio França Sucursal de Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaMudança esperadaAvá-guaranis que aguardam assentamento visitam área da futura reserva indígenaOs índios avá-guaranis acampados desde junho de 95 em 600 hectares de um refúgio biológico da Usina de Itaipu, em Foz do Iguaçu, conheceram na semana passada a área comprada pela empresa para o assentamento da comunidade. O cacique Inocêncio Acosta, acompanhado do filho Carmelo e do índio Manoel Silva, estiveram na Fazenda Padroeira, entre Diamante dOeste e Ramilândia, e classificaram a área como um paraíso.
Catorze anos depois do dilúvio em suas terras, provocado pela formação do lago de Itaipu, os índios avá-guaranis serão assentados em 1.700 hectares, entre os rios São Domingos e São Francisco. Ansioso por conhecer a nova terra, o cacique Inocêncio decidiu averiguar a área de maneira detalhada.
Cercada por montes com mata nativa, riachos e cachoeira, a Fazenda Padroeira atualmente produz gado leiteiro e de corte (nelore e búfalo). A Padroeira tem 30% de mata nativa, segundo levantamento feito pelo antropólogo Rubem Thomás de Almeida, contratado pela Itaipu para localizar uma área destinada aos avá-guaranis.
O valor pago pela área não é revelado pela Itaipu. É um sonho, diz o cacique. Ele esperava mudar em janeiro de acordo com a última previsão da hidrelétrica. Mas o decreto presidencial transformando a fazenda em reserva indígena ainda não foi assinado.
Acho que não é preciso a regulamentação. Nós queremos mudar para a área definitiva logo e já estamos pensando em pedir transporte para a Itaipu, disse o avá-guarani Manoel Silva, um dos membros da tribo que se comunica melhor em português. Ao todo, a comunidade tem 100 índios divididos entre 22 famílias.
Junto com eles, devem se mudar cerca de 340 índios que estão no seu antigo território, em Jacutinga-Ocoí, no município de São Miguel do Iguaçu, a cerca de 60 quilômetros de Foz do Iguaçu.
Ney de SouzaVida novaCacique Inocêncio: Área é um paraíso.
ResistênciaA história dos avá-guaranis é marcada pela resistência e resignação. Para apressar a desocupação da terra que seria atingida pela água em 1982, o Incra incendiou as choças.
O cacique conta que, na mesma época, quando a área indígena alagada chegava a 1.500 hectares, a Itaipu assentou provisoriamente os avá-guaranis numa área bem menor, de 230 hectares, no Ocoí. A mudança forçada levou muitos índios à marginalidade e à pedir esmolas nas ruas de São Miguel. Boa parte tentou trabalhar como bóia-fria. Outros morreram de doenças provocadas pelo uso de água contaminada com agrotóxicos usados na lavoura das fazendas vizinhas.
ProtestosA indefinição sobre o assentamento levou os índios a protestar em 95. Cansada de viver espremida no Ocoí, numa área insuficiente para sua sobrevivência física, cultural e de costumes, a tribo se instalou no Refúgio Biológico de Itaipu, em junho de 95.
No local, eles sobrevivem da pesca, caça e de doações de alimentos da Funai. Um barracão funciona como centro comunitário. Na escola, aulas são dadas em guarani pelo índio Theodoro. Em dezembro, a Itaipu anunciou a compra da área para o assentamento definitivo.


