População da reserva de Mangueirinha não quer saber de festa para comemorar os 500 anos
Williams Silva AmancioTENTATIVA DE RESGATE Criança indígena de Mangueirinha aprende a confeccionar roupas tradicionais: preservação culturalWilliams Silva AmancioA precariedade, inclusive nas habitações, é uma das queixas do cacique Valdir José Kokoj dos SantosWilliams Silva AmancioMenino guarani comercializa peças artesanais produzidas na reserva: fonte de sobrevivência
Luiz Carlos Dias Júnior
Enviado a Mangueirinha
Especial para a Folha

Mesmo com a chegada do Dia do Índio, 19 de abril, e os 500 Anos do Descobrimento do Brasil, os caingangues da reserva Mangueirinha, no município de Mangueirinha (76 km ao norte de Pato Branco) não tem muito o que comemorar. A declaração é do cacique Valdir José Kokoj dos Santos, líder da reserva há 18 meses. ‘‘Este negócio de 500 anos do Brasil é coisa de branco. Nós não temos quase nada a comemorar, apenas a nossa tradição, que é a Festa do Dia do Índio, será mantida’’, diz. ‘‘Neste evento reunimos quase que a totalidade dos índios da reserva, além de convidados de outras áreas indígenas, inclusive de outros estados’’, comenta o cacique.
Segundo ele, os mais de 2,2 mil índios da reserva estão recebendo investimentos na parte de agricultura, como a compra recente de um trator, implementos e insumos. Mas ainda há problemas de infra-estrutura. ‘‘Um dos problemas deverá ser solucionado em breve através de uma parceria para melhorar a qualidade das casas dos indígenas, mas ainda há questões de educação e também saúde que precisam de mais apoio’’, informa Kokoj.
Outro setor que recebeu incentivos, segundo o cacique, foi a criação da patrulha indígena, que faz a fiscalização da área. Ele diz que também foi melhorada a saúde, que passou da Fundação Nacional do Índio (Funai) para a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o que tem agilizado em muito os atendimentos.
Para o chefe do posto da Terra Indígena de Mangueirinha, Izaltino Luiz Serpa Silvério, a compra do trator irá facilitar as ações na agricultura comunitária, onde deverão ser trabalhados uma área de 50 alqueires. Já as hortas familiares funcionam para a subsistência das famílias, onde são plantados milho, feijão, arroz e mandioca. ‘‘Outra forma de rendimento dos índios da reserva é a venda do pinhão e da erva-mate nativa’’, diz Silvério.
Outra atividade que deverá voltar a ser realizada em breve pelos índios é o viveiro florestal. A expectativa é produzir em 2000 entre 80 mil e 90 mil mudas de pinus e erva-mate. ‘‘Nossa expectativa maior, porém, é quanto ao investimento da prefeitura na reserva, já que a área está gerando royalties ecológicos, que devem ser empregados em melhorias para a população indígena’’, salienta Silvério.
O fato de haver uma área na reserva em litígio – Gleba ‘‘B’’ – também deixa a população indígena descontente. A área está em disputa judicial com o grupo Slavieiro há mais de 30 anos.

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