Índios ganham corte de cabelo e aprendem uma nova profissão
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quinta-feira, 05 de março de 1998
Célia Baroni 
Na quarta-feira, seis alunos do curso de cabelereiro do Serviço Social do Comércio (Sesc) de Londrina estiveram na Escola Rural Cacique Copei, da reserva indígena São Jerônimo da Serra, para cortar os cabelos das crianças e adultos da reserva. A parceria é resultado de um projeto do Conselho Indígena da região. Além de oferecer o serviço à comunidade indígena, queremos incentivar a formação de profissionais dentro das aldeias, diz Genilda Maria Rodrigues, que faz parte do Conselho.
Para implantar o projeto, o Conselho Indígena precisou convencer os caciques das reservas. A primeira a aceitar foi a reserva de Barão de Antonina, também em São Jerônimo da Serra. Nós tiramos fotos e levamos para os caciques das outras reservas. Eles gostaram do resultado e agora também vão entrar no projeto, complementa. O sucesso foi tão grande que agora todas as aldeias estão querendo receber os alunos do Sesc, de preferência antes do dia 19 de abril, Dia do Índio.
O cacique da reserva São Jerônimo, Nelson Vargas, ficou satisfeito com a presença dos alunos do Sesc na aldeia. Enquanto enfrentava a tesoura, o cacique explicou que, normalmente, a comunidade da reserva precisa ir até a cidade para cortar o cabelo e paga R$ 5,00 por corte. Este valor é alto para o padrão de vida da nossa comunidade, e cortar o cabelo acaba virando um luxo. Espero que o projeto tenha continuidade, diz Vargas.
Nelson Vargas afirma que a visita dos alunos do Sesc poderia ser programada de três em três meses. Mas o interesse do cacique também é pela formação de membros da comunidade. Se tivéssemos nossos próprios profissionais, eles poderiam atender a comunidade por preços baixos e ainda teriam uma fonte de renda.
O índio Lorival Gerônimo da Silva, 43 anos, foi o primeiro da aldeia a se interessar pela oportunidade de aprender as técnicas de corte de cabelos. Ele mora há 10 anos na aldeia, é artesão e já quebra o galho de quem precisa acertar o corte. Gosto da profissão, mas ainda não tenho agilidade para atender um número maior de pessoas. Preciso aprender melhor as técnicas, afirma Lorival.
Sob o olhar atento da mãe, Maria Isaltina Cândida, de 87 anos, Lorival Gerônimo da Silva cortou o cabelo da conselheira Genilda Rodrigues. Só vim para explicar como corta o modelo tigelinha. O jeito como sempre foi feito, esclareceu Cândida. Geraldina Rodrigues escolheu o modelo porque faz parte da cultura caingangue. Uma das metas do Conselho Indígena, enfatiza Genilda, é incentivar as tribos a resgatar e valorizar sua cultura.
A orientadora de atividades do Sesc e professora Carmen Passucci garante que Lorival Silva leva jeito para a profissão. Ele tem dom e com poucas aulas vai poder desempenhar a profissão com tranquilidade.
Os alunos do Sesc ficaram contentes com a oportunidade de atender a comunidade indígena. Carmen Passucci explica que a maioria dos alunos quer participar do projeto e, para atender a todos, foram montadas equipes de seis alunos. A próxima visita vai ser feita por outro grupo de alunos, afirma. Eu estou adorando. É uma experiência nova e muito importante, diz Vilma Francisca de Oliveira, 31 anos. Ela se forma cabelereira no final do ano.
As crianças eram as mais entusiasmadas e esperaram tranquilamente a sua vez de cortar o cabelo. Ao todo, 96 crianças da reserva estão na escola. Os meninos preferiram o cabelo bem curto. As meninas optaram pelo estilo Cleópatra - franja curta e cabelo reto até os ombros. Sheila Fidêncio da Silva, 10 anos, garantiu: Nem sei quanto esperei. Mas não ia embora enquanto não conseguisse cortar o cabelo.


