Índios ganham aldeia de concreto
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Vinte e oito famílias de índios Caingangue, quatro Guarani e quatro Xetá estão morando, desde ontem, em 35 casas de 37 metros quadrados, construídas pela Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab), em uma área de 44,2 mil metros quadrados. O terreno, equivalente ao tamanho de pouco mais de cinco campos de futebol, fica no Campo do Santana, próximo à BR-116, na região sul de Curitiba, a 20 quilômetros do Centro.
"Nós, índios da aldeia Kakané Porã, estamos escrevendo nossos nomes na história. Somos a primeira aldeia urbana do Sul do País", discursou Carlos Luiz dos Santos, o cacique Cajer, 40 anos. A reunião das palavras "kakané", do caingangue, que significa "fruto da terra (ou da floresta)", e "porã", do guarani "bom", trata de explicar, já no nome da aldeia, o encontro entre as culturas, que reúne índios oriundos do interior do Paraná, muitos dos quais nasceram na Reserva de Mangueirinha (76 km ao norte de Pato Branco), e também dos outros dois estados do Sul. Das 35 famílias, 18 vieram da Reserva do Cambuí, às margens da Avenida das Torres -na divisa de Curitiba com São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba)- uma área de invasão, em que viviam desde 2002.
"Vamos mudar de uma terra em que estávamos invisíveis, vivendo em condições precárias, para casas novas e com boa estrutura", continuou o cacique. As construções em cimento possuem dois quartos, banheiro, cozinha e uma varanda, que foge dos padrões das casas da Cohab. "O espaço foi pensado para promover a integração entre as famílias, o que faz parte da cultura indígena, e também para desenvolver o artesanato, a principal fonte de renda", explica Mounir Chaowiche, presidente da Cohab, que cedeu o terreno. Ele afirma que foram gastos R$ 705 mil com as casas e benfeitorias, o que também envolveu a construção de uma oca central, que é um centro de convivência.
Chaowiche ainda lembrou do insucesso de outras iniciativas do gênero -Kakané Porã é a quarta aldeia urbana do Brasil-, citando a importância de que o espaço se torne auto-sustentável. "Por enquanto, ainda dependemos de doações e políticas públicas, mas queremos caminhar com as próprias pernas", afirmou o cacique Cajer, que pretende implantar um herbário, para a produção de ervas medicinais, e também uma oficina de artesanato, que vai fabricar, entre outros, sacolas biodegradáveis.
A relação com a cidade está presente em cada aspecto da tribo. Não há uma Casa de Reza -espaço tão caro aos guaranis- e os traços de mestiçagem estão nos rostos de muitos dos cerca de 150 moradores. A família da vice-cacique, Jovina Renh-Ga, 40, uma das primeiras mulheres a ocupar a função no Paraná, é retrato dos novos tempos. Ela é casada com o pedreiro Valdir de Oliveira, 37, que não é de origem indígena.
Segundo levantamento da Cohab, apenas 16% dos moradores da aldeia têm emprego formal. Em relação aos ganhos, 63% deles declararam ter renda familiar de até R$ 700, enquanto 16% disseram não ter renda alguma.
Na inauguração, na manhã de ontem, o líder da aldeia dividiu espaço não apenas com a fala de políticos e diretores de organizações diversas, mas também com o barulho gerado pela manifestação de moradores da região, que aproveitaram o momento (e a presença de lideranças e da mídia) para chamar a atenção para a situação do Aterro da Caximba (leia mais nesta página).


