Três funcionários da Copel, cinco operários de uma empreiteira que prestava serviços na aldeia e o administrador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai), José Gonçalves dos Santos, foram tomados como reféns na manhã de ontem pelos cainguangues da Reserva de Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina). Os índios protestam contra os baixos valores do repasse do contrato de arrendamento de área para a Copel, que há 52 anos instalou uma hidrelétrica de pequena potência na reserva, onde vivem 1,5 mil índios, entre eles uma pequena minoria guarani.
Dezenas de cainguangues bloquearam a estrada rural que dá acesso a Tamarana, única saída da aldeia em direção a Londrina, e chegaram a ameaçar a paralisação da usina. A unidade tem potência instalada de 9,5 megawatts. Apucaraninha é responsável por cerca de 10% do consumo de eletricidade do município de Londrina. Nem mesmo um pedido feito por telefone pelo prefeito de Tamarana, Paulo Nakaoka (PSDB), demoveu os líderes, que permaneciam irredutíveis na retenção das nove pessoas.
O cacique e outros líderes do movimento se reúnem hoje de manhã na reserva com o gerente de produção da Copel, Romano Francisco Laslowski. No encontro, os índios pretendem negociar o aumento do valor do repasse. Eles garantiram à Folha que os trabalhadores e o representante da Funai pernoitariam na reserva e só deixariam o local após o término da reunião marcada para as 9 horas.
‘‘Queremos um repasse justo, não este valor pequeno que a gente recebe. Estamos passando necessidade e a Copel podia rever o contrato e nos ajudar’’, disse o cacique Moisés Lourenço, 31 anos, empossado no cargo há cinco meses. De acordo com o líder indígena, a Copel repassa R$ 56 mil anuais para a tribo. Mais da metade do dinheiro – R$ 30 mil – retornam à companhia de eletricidade, na forma de conta de luz. A cobrança, segundo a assessoria da Copel, é obrigatória conforme legislação federal que proíbe isenção de tarifa.
A Copel não confirmou os valores previstos no contrato nem a estimativa feita pelos cainguangues. De acordo com a empresa, o montante é produto de um cálculo sobre a geração de eletricidade, que varia conforme as necessidades de mercado e da disponibilidade de água.
Os R$ 26 mil restantes da receita bancam o pagamento de boiadeiros, tratoristas e as etapas de vacinação das 200 cabeças de gado da reserva, informou o cacique. De acordo com Lourenço, nenhum centavo do valor é investido em obras que melhorem a qualidade de vida dos índios, que se consideram desassistidos pelo governo federal e sem alternativas econômicas rentáveis a curto prazo.
Uma fonte da Funai que não quis se identificar informou que o órgão vem intermediando há alguns anos o pedido de revisão do contrato de arrendamento. A mesma fonte disse que é a primeira vez que a Copel se dispõe a conversar com os índios sobre a questão. A Copel se defendeu dizendo que os termos do contrato foram homologados na concessão da própria hidrelétrica pela Agência Nacional de Energia Elétrica, órgão regulador federal. Em nota oficial, a empresa ‘‘reafirma a crença no diálogo como o melhor caminho para a superação de obstáculos’’.

mockup