Índios fazem funcionários de ONG reféns
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terça-feira, 21 de abril de 2009
Marcela Rocha Mendes<br>Equipe da Folha 
Funcionários de uma organização não-governamental (ONG) foram feitos reféns por lideranças indígenas durante o último feriado, em Curitiba. O motivo seria a falta de repasse das verbas para assistência à saúde das aldeias. A ocupação da sede da Associação de Defesa do Meio Ambiente de Reimer começou no final da tarde de segunda-feira e, segundo os indígenas, deve continuar até a solução do impasse.
Segundo o cacique de Clevelândia, Miguel Alves, também presidente do conselho local de saúde, há alguns meses o atendimento das aldeias de todo o Paraná começou a ser afetado. "Desde o início do ano, faltam medicamentos, combustível e até alimentos em algumas aldeias. Os funcionários contaram que receberam a rescisão de contrato, mas sem o acerto e os salários atrasados", conta.
Alves chegou a Curitiba na última quinta-feira para pedir explicações à ONG Reimer e à Fundação Nacional de Saúde (Funasa) sobre os problemas com as verbas. Da Funasa, receberam a resposta de que caberia à ONG o repasse. Da Reimer, souberam que a Funasa teria deixado de pagar os valores desde a última prestação de contas, em novembro do ano passado.
De acordo com o presidente da ONG Reimer, Eduardo Zardo, após o envio da última prestação de contas, teria havido uma mudança na metodologia com relação à parte técnica e, desde então, não houve a aprovação do relatório. "Pelo que sabemos, Brasília aguarda o parecer técnico da regional do Paraná. Mas, neste intervalo, houve três mudanças de chefia daqui. Já enviamos três versões do relatório e não recebemos a aprovação", explica.
O atraso do repasse já estaria em R$ 1,6 milhão. Conforme Zardo, a ONG utilizou recursos próprios até onde pôde, mas, desde dezembro, deixou de pagar os fornecedores e, em março, interrompeu o pagamento dos salários dos 80 funcionários. A ONG atende 13 mil indígenas nas 46 comunidades de todo
o Estado.
Sem conseguir a resposta, os líderes indígenas se articularam para fazer a ocupação, pacífica, da sede da Reimer. "Vamos ficar até termos uma resposta que convença. Amanhã, vamos agendar uma reunião com o Ministério Público e com a Funasa. Também vamos vamos mandar uma equipe para a sede da fundação", comenta o cacique Alves.
A ocupação na Reimer, que iniciou com 12 indígenas, já contava 20 manifestantes na tarde de ontem e a expectativa é que chegasse a 50 homens. Dormindo nos sofás ou em cadeiras, eles receberam alimentos doados por uma outra ONG indígena. Ninguém foi ferido e os quatro reféns -entre eles o presidente da Reimer e três funcionários- mantêm contato normalmente com seus familiares.
O contrato da Reimer com a Funasa encerra no dia 24 deste mês. A partir dessa data, uma empresa, com sede em Santa Catarina, assume o atendimento. Para o cacique Alves, a situação ideal de prestação de serviço nas aldeias seria o trabalho direto do Ministério da Saúde ou a contratação de uma ONG indígena. A Funasa estava em recesso, ontem, em função do feriado, e não atendeu à reportagem.


