A Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) precisam investir na reeducação dos povos indígenas sobre questões de saúde e higiene para, inclusive, melhorar a qualidade de vida dos índios brasileiros. Esta é a opinião da pesquisadora Marlene de Oliveira, coordenadora do Programa de Atendimento aos Caingangues da Secretaria de Ação Social de Londrina.
Pesquisando a antropologia médica dos povos indígenas desde 1989, Marlene considera que a morte da índia Liliane Marcondes, de 11 meses, na semana passada, pode servir de alerta para os órgãos sobre a necessidade dessa interferência na educação e saúde sem medo e sem usar a desculpa de um possível choque cultural. ‘‘A cultura é reelaborada diariamente, é dinâmica, viva. Já levamos tantas coisas que não prestavam. Agora é nosso dever levar as informações corretas’’, afirmou.
Liliane morreu no dia 11, na Reserva Indígena do Apucaraninha, em Tamarana (80 km de Londrina), após apresentar sintomas de pneumonia agravada por desnutrição. A família da menina teria se recusado a interná-la em um hospital, preferindo levar a filha para o pajé da tribo e, posteriormente, aos índios evangélicos para orarem pela recuperação. O promotor da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Tiago de Oliveira Gerardi, determinou a abertura de inquérito policial para investigar a morte da menina.
Para Marlene, não houve negligência intencional dos pais da menina. ‘‘É preciso entender que, primeiro, a cultura médica deles é muito diferente da nossa. A concepção que eles têm de saúde e doença não se dissocia da vida global. Para o índio, não é só o coração, por exemplo, que fica doente. É o corpo inteiro e a natureza em sua volta. Na concepção da mãe, ela estava cuidando da filha’’, afirmou.
Segundo ela, dentro de uma tribo existem ‘‘especialistas’’ que são procurados: o pajé ou xamã, o erveiro (que usa a fitoterapia) e o rezador. De acordo com Marlene, os tratamentos se baseiam em normas e tabus que toda a família usa. Os médicos seriam procurados só quando algum desses tabus não são cumpridos. ‘‘Passados 500 anos de socialização, isso ainda é muito forte para eles e não pode ser modificado sem um trabalho intensivo’’, afirmou.
Segundo Marlene, o trabalho deveria começar com cursos de antropologia para as equipes médicas que atuam nas reservas. ‘‘E os ‘especialistas’ são parte fundamental da transformação. Eles precisam entender que têm que trabalhar junto com os médicos brancos. Que o erveiro receite a erva sim, mas que recomende que procure ajuda médica e vice-versa’’, afirmou.
A maior dificuldade que Marlene vê na reeducação é o tempo que o trabalho pode levar. ‘‘Não adianta ir uma vez, falar com eles e esperar que tudo seja feito como se deve. É preciso trabalhar, insistir, voltar a insistir, dar uma continuidade. É um trabalho a longo prazo. Mas está na hora de fazê-lo’’, afirmou.

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