Índios de Ocoí sofrem com falta de terra
Problema é agravado com a chegada de imigrantes de outras regiões, principalmente da Argentina e Paraguai
Ney de SouzaComunidade vive com agregados de outras tribos. O cacique Souza, ao alto, diz que apesar de pequena, aldeia recebe todos bem
Emerson Dias
De Foz do Iguaçu
Especial para Folha
Além de conviver com diversos problemas encontrados em outras tribos, como alcoolismo, miscigenação, falta de assistência médica e dificuldades no cultivo de lavouras, os índios Avá-Guarani da Reserva de Ocoí em São Miguel do Iguaçu (45 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu), sofrem com a escassez de terra. O problema vem se agravando principalmente com a imigração de guaranis paraguaios e argentinos, que provoca uma superlotação na menor área demarcada no Paraná, que possui apenas 231 hectares.
Enquanto a média estadual é de 7,9 hectares para cada índio, em Ocoí (que em guarani significa pássaro dágua) este índice chega somente a 0,45 hectare para cada um dos atuais 512 moradores da aldeia, população calculada pelo cacique José Duarte de Souza, também chamado de Caraí Mirim. A quantidade muda sempre por causa dos índios dos outros países, disse, referindo-se aos mais de 50 guaranis da Argentina e do Paraguai, que vieram recentemente para a aldeia.
Com 48 anos e natural de Guaíra, Souza já viveu no Paraguai, na reserva de Rio das Cobras em Laranjeiras do Sul e há dois anos chegou a São Miguel, onde decidiu ficar. Aqui é minha terra. E apesar de ser pequena, nós recebemos todos que vêm pra cá.
Exemplo da boa relação com os que peregrinam pela fronteira é o vice-cacique Simão Tupã Reta Vilialva, 34 anos. Ele nasceu e passou a adolescência em uma tribo próxima ao Rio Jacutinga. Foi ao Paraguai, onde ficou dois anos, e voltou ao Brasil para viver em Tekaha-Anãetete (reserva criada entre Diamante do Oeste e Ramilândia). Há um ano foi para Ocoí com a mulher e hoje tem três filhos. Todos aqui têm parentes em outras reservas do Paraná e também nos países vizinhos, explicou.
A instabilidade causada pelo movimento migratório (veja história nesta página) e a crescente chegada de novos índios, fazem com que eles deixem de fixar moradia e de melhorar a qualidade de vida da comunidade. O crescimento demográfico do grupo acompanha o índice nacional, que é de 5% ao ano (três vezes mais que os brancos), o que inviabiliza até mesmo a plantação para subsistência.
O responsável pelo posto da Funai de Ocoí, Imélio Antonio Fantin, explica que a alternativa encontrada está sendo a busca de parcerias e investimentos dentro do próprio município. Atualmente, parte do ICMS recolhido na cidade (R$ 4,4 mil/ano) é repassada para a manutenção da reserva. Mas um projeto pretende aumentar este valor. Até o final do ano contaremos com o ICMS Ecológico, que deverá repassar aos índios cerca de R$ 100 mil todos os anos. Só assim poderemos oferecer uma infra-estrutura melhor para eles viverem.





