Índios de Guarapuava atacam invasores
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de novembro de 1998
Adriana Ribeiro 
Brancos e índios da Terra Indígena Guarapuava, conhecida como Marrecas dos Índios, na divisa de Guarapuava e Turvo, no centro-oeste do Paraná, voltam a se confrontar. Na terça-feira, dez pessoas que se dizem herdeiras da área invadiram a reserva e ergueiram pequenos barracos. Revoltados, os índios prenderam os ocupantes - liderados por Alaurinda Maria da Cruz, 80 anos -, que tiveram as roupas arrancadas e ainda apanharam de chicote e pedaços de pau. Todos precisaram de atendimento médico, e um dos invasores, gravemente ferido na cabeça, precisou ser hospitalizado.
Ainda nus, os invasores da reserva foram colocados sobre um caminhão e levados para o posto da Funai que funciona dentro das terras dos índios, e depois encaminhados à Delegacia de Guarapuava. O delegado operacional Antônio Colombo exigiu a realização de exames de lesão corporal e abriu inquérito para apurar o fato. Todos foram liberados em seguida. Acho que os índios se precipitaram. Se houve a invasão, deveriam avisar a Funai, que poderia ir ao local com a polícia para resolver a situação, comentou o delegado.
Pedro Cornélio Seg Seg, que mora na reserva Marreca dos Índios e é presidente do Conselho Indígena de Guarapuava, disse que os índios agrediram os brancos para que eles nunca mais voltem a invadir a área. Esta foi a segunda vez que o mesmo grupo tenta ocupar o local, que tem mais de 16 mil hectares e é uma das mais ricas reservas do Sul do País em fauna e flora. A primeira tentativa aconteceu há quatro anos.
Seg Seg conta que a briga existe porque o grupo que pertence a uma única família descendente de escravos entrou com uma ação judicial alegando que pouco mais de dois hectares da área lhe pertence. Eles têm até documentos frios, argumentou. A história começou no século passado - entre 1850 e 1856, quando brancos e índios moravam no mesmo local. Mas em um confronto, os índios expulsaram os brancos. Segundo Seg Seg, desde 1825, a área é reconhecida como de uso indígena.
Os índios queriam que os invasores fossem presos depois do confronto de anteontem. Seg Seg disse que, além da ocupação, os brancos deram sete tiros em direção aos índios no momento da abordagem, que aconteceu às 6 horas de terça-feira. Como o grupo não foi detido, os índios agora temem pela segurança dos 500 integrantes da reserva, formada por caingangues, xetás e guaranis. Um dos invasores é ex-policial militar e a mulher de outro é enfermeira no Hospital São Vicente, onde os índios doentes são internados, contou.
Temendo represálias, os índios pediram à Funai a ajuda da Polícia Federal. Ontem, o administrador da Funai em Guarapuava, Vladinei Tadeu da Silva, iria solicitar à Polícia Militar do município medidas de proteção aos índios. O delegado de Guarapuava teme que a briga se torne ainda maior, resultando na morte de integrantes dos grupos.


