Índios conquistam terra após 15 anos
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segunda-feira, 21 de abril de 1997
Valmir Denardin Sucursal de Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaDe mudançaAvá-guarani, a caminho da nova reserva: rios e mata em abundância vão garantir a caça e a pescaUma agonia de 15 anos chegou ao fim na última sexta-feira. Na véspera do Dia do Índio, a tribo avá-guarani, que vivia às margens do Rio Paraná e teve sua reserva inundada pela formação da hidrelétrica de Itaipu, em 1982, foi transferida para uma área definitiva.
A mudança poderá encerrar um ciclo de resistência, miséria e descaracterização cultural dos índios.
A nova reserva indígena possui 1.744 hectares e está localizada entre os municípios de Ramilândia e Diamante do Oeste (a 110 quilômetros ao norte de Foz do Iguaçu).
A área foi comprada pela Itaipu Binacional - empresa formada pelos governos de Brasil e Paraguai e que administra a maior hidrelétrica do mundo - por R$ 2,8 milhões.
Denominada originalmente Fazenda Padroeira, a reserva foi agora rebatizada pelos índios como Tekoha-A¤etete, palavra que, na língua da tribo, o guarani, significa a aldeia verdadeira.
É uma área muito boa, disse à Folha Rubem Thomaz de Almeida, antropólogo da Universidade de São Paulo (USP). O antropólogo foi contratado pela binacional para intermediar o processo de transferência. A área é coberta de mata, o que favorece a caça, é banhada por dois rios bons para a pesca, a água é abundante e de boa qualidade e a terra é favorável para a agricultura, descreve o antropólogo.
Segundo Almeida, que trabalha com índios guaranis há 14 anos e fala perfeitamente a língua deles, a área foi escolhida pela comunidade, composta por 163 pessoas. Eles externam que estão muito felizes com a escolha, contou o antropólogo.
No Refúgio Biológico de Itaipu, onde os índios permaneceram nos últimos 22 meses, a caça e o desmatamento são proibidos por lei. Com cerca de 600 hectares de mata, o Refúgio Biológico é utilizado pela hidrelétrica para a preservação de espécies animais e vegetais. Apesar da necessidade, eles não caçaram e não desmataram nenhum centímetro, afirmou Rubem Thomaz de Almeida.
O Refúgio Biológico foi invadido pela comunidade indígena em protesto contra a indefinição da hidrelétrica em fazer o assentamento definitivo.
Segundo o antropólogo Rubem de Almeida, a insistência dos índios em conseguir a terra foi fundamental para que, apesar da demora, a história tivesse um desfecho favorável.
A resistência dos avá-guarani marcou todo o processo. Em 83, com o alagamento de suas terras, eles foram levados para uma gleba de 230 hectares - área cinco vezes menor que a original -, localizada em São Miguel do Iguaçu (a 45 quilômetros de Foz).
Com pouco espaço, a cultura dos avá-guarani ficou bastante comprometida. Muitos índios se tornaram bóias-frias. Outros morreram depois de beber água contaminada por agrotóxicos usados em lavouras daquela região.


