Índios aprendem a combater a Aids em reservas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de julho de 1997
Luka Morais 
Londrina
Marcos BorgesUnião de esforçosO cacique Juscelino, Tófole e a antropóloga Marlene: lideranças indígenas serão multiplicadores de informaçõesFóg Kága em caingangue. Baaxy Vai em guarani. Ou doença de branco. A Aids foi traduzida para as línguas faladas em cinco reservas indígenas do Norte do Paraná. Com isso, a principal barreira - que é a linguagem - para que as informações sobre a doença e formas de prevenção cheguem até as comunidades indígenas da região começou a ser quebrada. Foram elaboradas cartilhas, com traduções e ilustrações feitas pelos próprios índios, no final do ano passado.
Ontem foi dado mais um passo para que as comunidades indígenas tenham acesso às informações sobre a Aids: a formação de lideranças que vão se transformar em multiplicadores de informações sobre doenças sexualmente transmissíveis (DST/Aids) nas reservas.
O modo como os agentes vão atuar será definido durante o 1º Treinamento de Multiplicadores de Informações com a População Indígena, que continua até amanhã, no hotel do Lago.
De acordo com coordenador técnico da Vigilância Interinstitucional da Secretaria Municipal de Saúde, Ronaldo César Tófole, o treinamento é uma experiência pioneira com comunidades indígenas, que poderá servir de modelo para o Ministério da Saúde em outras localidades.
Apesar de inovadora, a iniciativa começa tarde pela demora na liberação dos recursos, diz Tófole. A idéia, ele explica, era iniciar o trabalho em 1995, logo após a morte de um caingangue, portador do vírus HIV, na reserva de Laranjinha, no município de Santa Amélia (63 quilômetros ao sul de Cornélio Procópio). O indígena foi contaminado por um outro morador da reserva, que veio de São Paulo, onde contraiu o vírus, e que morreu em 1992.
Ronaldo Tófole diz que não há no Brasil estudos nem levantamentos sobre a incidência da síndrome nas comunidades indígenas. Esse, aliás, será tema de outro encontro que acontece no próximo mês em Londrina, devendo reunir representantes de vários Estados.
Até lá, os cerca de 2.400 indígenas das cinco reservas da região receberão, emergencialmente, noções sobre a doença através dos agentes multiplicadores, que irão promover reuniões com as comunidades e vão distribuir cerca de 3 mil cartilhas e preservativos.
Na opinião do coordenador, introduzir o uso do preservativo nas comunidades indígenas não é tarefa das mais fáceis. É tão difícil quanto atingir o branco, diz ele. O preservativo, segundo o dentista da Funai, César Soares Gutmann, que trabalha nas reservas, não encontra resistência junto à população mais jovem.
As ações nas reservas indígenas devem considerar as peculiaridades de cada grupo, diz a antropóloga e coordenadora do Programa de Atendimento aos Caingangues na Secretaria de Ação Social, Marlene de Oliveira. Mas a Aids, segundo ela, precisa ser apresentada como epidemia que, a exemplo de tantas outras, dizimaram comunidades indígenas.
A proximidade dos postos indígenas com centros urbanos é um dos aspectos agravantes. Isso em função do contato cada vez maior entre os membros das reservas com prostitutas. Dái a importância do uso preservativo como forma de prevenção contra o vírus, diz Tófole. Marlene de Oliveira complementa: Não queremos que os índios fiquem trancados nas reservas, nem tampouco mudar seus hábitos.
Participam do treinamento professores bilingues, agentes de saúde e lideranças dos postos indígenas de Pinhalzinho (município de Tomazina), Apucaraninha (Tamarana), Laranjinha (Santa Amélia), São Jerônimo da Serra e Barão de Antonina (ambos no município de São Jerônimo).
Promovido pelo Programa Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis/Aids, Fundação Nacional de Saúde (FNS) e Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia), o projeto de treinamento é patrocinado pelo Ministério da Saúde, que investiu parte dos R$ 40 mil. O restante foi obtido junto à Funai, FNS e Prefeitura de Londrina.
Durante o treinamento, serão abordados temas clínicos, psicológicos, jurídicos e pedagógicos. As palestras e cursos estão sendo ministrados pela antropóloga Marlene de Oliveira, que aborda o aspecto sócio-cultural, pela médica Marilda Kohacsu, que fala sobre os aspectos clínicos e psicológicos, e pela enfermeira Sonia Aparecida Alvarez Spagnulo, responsável pela abordagem clínica e pedagógica. A coodernação geral do evento é de Ronaldo César Tófole e Ronildo Lima, representantes da Alia.


