Índios ameaçam fechar rodovia no PR
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quarta-feira, 23 de dezembro de 1998
Valmir Denardin 
Até o final do ano, representantes dos 9 mil índios do Paraná poderão interditar uma rodovia federal, em protesto contra as condições precárias das 17 aldeias do Estado. A ameaça integra um documento enviado às principais autoridades estaduais e federais, do qual a Folha obteve uma cópia.
Resultado de um encontro estadual, ocorrido no último dia 15, na reserva Guarapuava, no município de Turvo (54 km ao norte de Guarapuava), o documento é composto por oito reivindicações, que incluem desde a remarcação de áreas indígenas, a destinação de mais recursos para programas de assistência até o respeito às tradições de cada comunidade.
Assinado por Lourival de Oliveira, presidente do Conselho Indígena Estadual do Paraná, e Pedro Cornélio Seg Seg, presidente do Conselho Indígena Regional de Guarapuava, o documento foi enviado ao presidente Fernando Henrique Cardoso; ao ministro da Justiça, Renan Calheiros; ao presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Sullivan Silvestre; ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro; ao governador Jaime Lerner (PFL); à Câmara dos Deputados e à Justiça Federal e Polícia Rodoviária Federal no Paraná.
Segundo a Folha apurou, o prazo final dado pelos índios para ter as reivindicações atendidas termina no Natal. Se a ameaça for cumprida, o mais provável é que eles fechem a BR-277, que corta a reserva caingangue de Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras (134 km a oeste de Guarapuava).
A primeira reivindicação da lista é a delimitação da reserva caingangue Boa Vista, em Laranjeiras do Sul (109 km a oeste de Guarapuava). A reserva foi extinta pelo governo paranaense nos anos 30. Com a extinção, os índios se dispersaram em outras áreas da região.
Eles querem também a criação, no noroeste do Paraná, de uma reserva para a etnia xetá, originária do Estado. De acordo com Jefferson Borges, coordenador estadual do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) - órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) -, o povo xetá está restrito atualmente a menos de 15 indivíduos, espalhados pelo Sul do País.
Os índios também exigem receber 50% do ICMS Ecológico, hoje pago integralmente aos municípios que possuem reservas; a criação de um fundo nacional de assistência às comunidades e até a construção de casas seguindo a cultura de cada etnia. Apesar de parecer sem importância, essa reivindicação pode resgatar traços culturais. Na reserva guarani Palmeirinha, em Chopinzinho (46 quilômetros ao norte de Pato Branco), a Funai construiu casas com assoalho de madeira, logo arrancado pelos índios, que têm o costume de acender fogueiras no chão.
É pouco provável que o governo federal consiga atender as reivindicações dos índios do Paraná. Na proposta orçamentária da Funai para 99, a verba destinada à assistência ao índio foi reduzida em 25% - passou de R$ 32,2 milhões para R$ 24,3 milhões. Os programas de saúde, educação e apoio ao plantio serão os mais afetados pelo corte, disse à Folha o administrador regional da Funai em Guarapuava, Vladinei Tadeu da Silva.
Já passamos por dificuldades em 98, mas a situação vai piorar no próximo ano, avaliou Silva, que tem sob sua jurisdição dois terços do total de índios do Paraná (6,7 mil pessoas, distribuídas em 11 aldeias).


