Curitiba

Albari RosaPressãoÍndios já encheram dezenas de sacos de lixo, mas querem receber mais que cesta básica doada pelo governo estadual. O programa envolve 30 famílias de tupi-guaranis, que vivem na Ilha de Cotinga, em Paranaguá, e em Cerco Grande e Morro das Pacas, em GuaraqueçabaA proposta do governo do Estado de envolver os índios da Ilha da Cotinga e de Guaraqueçaba num programa de coleta do lixo que se acumula na orla começa a enfrentar resistência entre os guaranis. Depois de 20 dias de trabalho, eles já encheram dezenas de sacos de lixo, mas alguns ameaçam desistir se continuarem recebendo em troca apenas uma cesta básica por mês. ‘‘Queremos alternar a cesta com um salário mínimo’’, diz João Mariano, 37 anos, genro do cacique da tribo da Cotinga, Jorge Rodrigues.
O programa envolve 30 famílias de tupi-guaranis, que vivem na Ilha de Cotinga, em Paranaguá, e em Cerco Grande e Morro das Pacas, em Guaraqueçaba. Muitas dessas famílias vivem em situação próxima da miséria.
A idéia do programa do lixo é, além de garantir a limpeza da orla marítima, dar condições de auto-sustentação aos índios. ‘‘Queremos evitar o assédio de não-índios que usam os índios como ‘mulas’ para a venda de palmito e papagaios’’, diz o assessor do governo para assuntos indígenas, Edívio Battistelli.
Segundo ele, o programa prevê também a participação dos índios no plantio de palmito e erva-mate e a atuação como fiscais ambientais. Em troca, cada família deve receber uma cesta básica por mês.
Na Ilha da Cotinga, a coleta acontece três vezes por semana, pela manhã, quando a maré está baixa e o lixo trazido pelo mar pode ser recolhido. Ao pé de uma árvore na entrada da área indígena, uma grande pilha de sacos cheios de lixo (principalmente latas e garrafas) já se formou. Quando o volume for suficiente para encher um barco, o lixo será transportado para o continente.
Mas o programa não parece despertar entusiasmo entre os guarani. ‘‘É muito grande, muito difícil limpar tudo’’, diz o cacique. O genro, João Mariano, acha que o governo está promovendo discriminação. ‘‘Os pescadores que participam do programa recebem cesta básica num mês e no outro, um salário mínimo. Aqui, só porque é índio, tem que trabalhar só pela cesta?’’, pergunta. E ameaça: ‘‘Vou trabalhar um mês. Se vier só a cesta básica, não continuo’’.
Batistelli diz que a decisão de não repassar dinheiro aos índios foi tomada pelos líderes da própria comunidade. ‘‘Eles querem evitar que o dinheiro seja usado para comprar bebida alcoólica’’, afirma. O professor da escola da Ilha da Cotinga, Jair Rodrigues, confirma que ‘‘metade dos chefes de família bebe’’. Ele diz que só vai apoiar o pagamento em dinheiro se todos se comprometerem a comprar apenas comida.

mockup