Índios acusam o governo pela miséria
FRATERNIDADE Índios acusam o governo pela miséria Mencionados no documento da CNBB sobre a CF-2000, índios disparam críticas contra as autoridades e lamentam enfraquecimento da Funai Cesar AugustoLourival Ren Vai de Oliveira: desrespeito de 500 anos Telma Elorza De Londrina O homem branco pergunta por que, se a gente tem terra, não fica nela. Mas o índio não tem nem um palmo de terra. O índio só mora na terra que é do governo. Para ele (governo), nós somos como uma criação, gado. O desabafo é do índio caingangue Moacir Campolin, 49 anos. Campolim nasceu e se criou na reserva indígena do Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina). Ele costuma vir a Londrina para vender produtos artesanais. Para Campolim, o próprio governo federal não trata o índio com respeito. Parece que eles querem que a gente viva sempre na miséria. Eu sempre penso em plantar mais, fazer uma lavoura maior para vender o que sobrasse, mas o Governo não deixa. Parece que não querem que o índio vá para frente, critica. Na sexta-feira, Moacir, a mulher e oito filhos estavam no Centro Cultural Kaingang, inaugurado ano passado com objetivo de abrigar os índios da reserva quando estão em Londrina para comercializar produtos artesanais. Desde que o Centro foi inaugurado, esta foi a segunda vez que a família de Moacir teve permissão para vir. A gente precisa de portaria do cacique. E todo mundo quer vir, para ganhar um dinheirinho. Então temos que esperar, conta. Segundo o caingangue, é com a venda dos balaios e cestas produzidos pelas mulheres que a família se sustenta. Com a venda, em média, de 20 balaios a R$ 10,00 cada, eles têm que sobreviver por, pelo menos, seis meses. Com este dinheiro, a gente compra comida, roupa, sabão, o que der, dize. Só não passam fome, explica, porque na reserva ainda há caça, pesca e o pouco que plantam. Mas é uma vida dura, viu? Campolim reconhece que preferiria ficar na reserva, trabalhando na lavoura das fazendas vizinhas. Mas há muito tempo a gente não consegue serviço, explica. Então, não tem outra alternativa a não ser vender os balaios. A gente tem que andar muito, ir bem longe para vender nos conjuntos, sem comer nada porque não tem dinheiro para comprar um marmitex. Então não dá para ir todo dia. As mulheres e as crianças ficam cansadas, fracas, tem que descansar, aponta. Outro problema, segundo Campolim, é o descaso da população para com eles. Alguns tem dó da gente, dão um pouco de comida. Mas a maioria parece que nem vê a gente. Acho que se um índio cair doente na rua, eles deixam ali, afirma. Para o presidente do Conselho Indígena do Estado do Paraná, o caingangue Lourival Ren Vai de Oliveira, o desrespeito e indignidade com o índio começou há 500 anos, quando o homem branco desembarcou no Brasil. Os índios já estavam aqui, eram donos da terra. Foram massacrados, mortos, queimados pelos brancos. Hoje, somos limitados em reservas, área pequenas, sem apoio para sermos auto-suficientes. Segundo Oliveira, a sociedade branca ignora os direitos dos índios. Nós somos gente, somos seres humanos. Mas temos que sobreviver quase na miséria, com a falta de remédio, falta de comida. E nos negam a oportunidade de melhorar de vida, acusa. Na opinião de Oliveira, o próprio o governo é responsável pelo descaso e pela situação crítica dos índios brasileiros. Agora, ao invés de fortalecer a Funai (Fundação Nacional do Índio), estão acabando com ela. Já tiraram o serviço de saúde da responsabilidade do órgão e passaram para a Fundação Nacional de Saúde, que não tem nem um carro em boas condições para atender as reservas. Logo vão tirar também o pouco apoio que recebemos para plantar e assim por diante.





