Londrina

Josoé CarvalhoDiscurso enganosoPessoas trazidas de Ribeirão do Pinhal: ferimentos graves e promessa de tratamento médico em LondrinaCinco indigentes que estavam até a manhã de ontem em Ribeirão do Pinhal (no Norte Pioneiro, a 57 quilômetros de Jacarezinho) foram literalmente despejados em Londrina, no começo da tarde, na esquina das ruas Paranaguá e Henrique dos Santos. Segundo o que eles disseram - e também testemunhas que estavam em um bar, bem em frente ao local - foi a própria prefeitura daquela cidade quem ordenou o ‘‘serviço’’.
O grupo chegou a Londrina em uma perua Kombi branca, com identificação da Ação Social de Ribeirão do Pinhal, placas AAF-8439. Pelo menos dois dos indigentes apresentavam ferimentos na pele, nos pés e também nas mãos.
As cinco pessoas tinham origens diferentes (a maioria do Norte do Estado) e disseram que estavam em Pinhal em busca de serviço. Mas, por falta de opção, permaneciam já há alguns dias dormindo no pátio de uma igreja da cidade. Valdir Ribeiro conta que ontem foi recolhido por uma assistente social da prefeitura e recebeu - junto com um lanche de mortadela - a promessa de que receberia tratamento médico em Londrina. Em companhia dos outros, partiu de lá com toda a roupa embrulhada em uma trouxa. ‘‘Aí, quando a gente chegou, ela (a assistente social) disse que a gente ia ser internado aqui mesmo’’, afirmou, apontando para a calçada. Ribeiro permanecia com os pés descalços porque, segundo ele, os chinelos voltaram para Pinhal junto com a perua Kombi.
Muito nervoso com a situação e não conseguindo esconder o choro, Luiz Carlos Amaral explicou que estava trabalhando até a semana passada na fazenda Santa Alice, perto de Cornélio Procópio, na roçada. Depois de dispensado do serviço, ele e os amigos passaram a dormir na igreja em Ribeirão do Pinhal. Amaral admite que de vez em quando gosta de tomar uns ‘‘gorós’’ e que estava bêbado quando foi abordado pela equipe da prefeitura. Mas ainda assim promete voltar para a cidade cobrar explicações sobre a maneira como foi tratado. ‘‘Pedir eu não sei, roubar eu não sei. Só sei trabalhar. Nós temos que mostrar para eles que em Ribeirão do Pinhal não tem prefeito.’’
Os irmãos José Carlos e Orlando Amorin também faziam coro na reclamação. José Carlos, inclusive, estava com os pés inchados e necessitava de atendimento médico. Pior que ele estava Sebastião Pereira dos Santos: as mãos tinham ferimentos aparentemente muito graves e, por baixo da gaze, era possível observar que já tinha perdido pelo menos um dedo do pé esquerdo. ‘‘Não é só na mão e no pé não, eu estou doente mesmo. Vim para cá na esperança de internamento. Agora não sei o que vou fazer. Vou ficar sentado aqui’’, dizia, completamente desnorteado.
A situação do grupo revoltou os frequentadores do bar. Ademir Prado, por exemplo, estava sentado com os amigos quando viu os cinco indigentes sendo ‘‘despejados’’ da perua kombi. Ele conta que não sabia o que fazer e por isso resolveu chamar a imprensa. ‘‘Assim é fácil resolver a situação, é só jogar o pessoal em outra cidade’’, resignava-se. ‘‘É um absurdo’’.
O dono do bar, que não quis se identificar, também ficou irritado. ‘‘Essa é a primeira vez que eles deixam gente aqui na porta do bar. E espero que seja a última.’’

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