Marcos BorgesDespedidaAlguns índios desarmavam ontem as últimas barracas na Via Expressa: pedido do cacique, quase um mês depois da morte de Paulo XavanteOntem à tarde, alguns poucos índios terminavam de desmontar os barracos de madeira e lona do acampamento caingangue que durante os últimos meses ocupou espaço à beira da Via Expressa, perto do parque Arthur Thomas, na região sul da Cidade. Passado o Dia do Índio - 19 de abril -, motivo principal da vinda deles para Londrina segundo a Funai, os caingangues voltam à reserva do Apucaraninha (no distrito de Lerrovile, a 60 km) a pedido do cacique Jucelino Virgílio e com o saldo negativo da morte de Paulo Xavante.
Segundo o técnico indigenista da Funai José Gonçalves dos Santos, os índios que frequentam Londrina não são só da reserva do Apucaraninha. ‘‘Eles vêm também de reservas mais distantes, como as de Faxinal, Guarapuava, Ortigueira e São Jerônimo da Serra. Eles vêm principalmente nas épocas do Natal e do Dia do Índio, com o objetivo de vender suas produções artesanais e conseguir algum dinheiro para as festas alusivas a estas datas. E também porque são épocas de entressafra agrícola nas reservas’’, explica.
José dos Santos conta que os índios vêm à Cidade com consentimento do cacique de cada reserva e ficam aqui, no máximo, uma semana ou dez dias. ‘‘Portanto, não são sempre os mesmos que estão pelas ruas vendendos seus artesanatos. Eles são uma minoria e saem da reserva em sistema de rodízio, com suas famílias inteiras. Isto é da cultura deles; são povos nômades e estão nesta região muito antes da chegada dos colonizadores e pioneiros’’, afirma o técnico indigenista. ‘‘Não dá para a Funai impedir a saída dos índios das reservas. A reserva não é uma prisão, e os índios têm o direito constitucional de ir e vir.’’
O administrador da Funai, Joventino Domingos Aco, comenta que a constante vinda de índios para a Cidade tem sido estimulada pela doação de alimentos, roupas e móveis por parte de londrinenses. ‘‘Muita gente doa comida, fogão, camas, geladeiras e todo tipo de móveis usados aos índios acampados na Cidade, normalmente à beira da Via Expressa ou do lago Igapó. Isto dá aos indígenas a falsa impressão de que a vida na Cidade é mais fácil que na reserva. Isto, apesar da boa intenção dos doadores, é assistencialismo e atrapalha muito o trabalho educativo da Funai.’’,
Na reserva do Apucaraninha vivem 832 índios caingangues, que produzem arroz, milho, mandioca e outros produtos agrícolas e animais em quantidade suficiente para a subsistência deles. A reserva - uma das melhores equipadas do Paraná - conta com escola, posto de saúde, posto telefônico e outros benefícios. A Funai de Londrina é responsável ainda por outras quatro reservas, num total de 2.100 índios caingangues e guaranis, nos municípios de Santa Amélia, São Jerônimo da Serra (duas) e Tomazina.
Joventino Aco explica que os interessados em fazer doações aos índios devem procurar o escritório da Funai - pelo fone 329-3080 - ou levar o material diretamente nas reservas. ‘‘Esta distribuição feita nos acampamentos ou nas ruas não é aconselhável e nem o melhor caminho, porque acaba atraindo cada vez mais índios para a Cidade. O que pode ser considerado um incômodo pelos brancos, mas principalmente não é bom para os próprios índios, que estão mais seguros e em melhores condições de vida nas reservas.’’

mockup