Exceto pela aquisição de alguns bens de consumo, como os televisores que sintonizam programas policiais na hora do almoço - uma febre entre os Kaingang - e motocicletas para encarar as precárias estradas da região, pouca coisa mudou na reserva indígena Apucaraninha, em Tamarana, desde outubro de 2006.
Foi naquela data que os cerca de 1,5 mil índios da aldeia conquistaram uma indenização de R$ 14 milhões da Companhia de Energia do Paraná (Copel), dinheiro depositado num fundo, para ser entregue em parcelas até 2011. A primeira, equivalente a 20% do total, saiu ainda em 2006. No mês passado, foram liberados mais R$ 2,2 milhões.
Se a parte financeira do acordo está sendo cumprida conforme o cronograma, o mesmo não se pode dizer sobre a destinação dos recursos. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado por Kaingangs, Copel e Ministério Público (MP) - como compensação pelos danos causados pela instalação de uma usina hidrelétrica na reserva - previa que a maior parte do dinheiro seria aplicada em projetos auto-sustentáveis para os índios. Mas, até agora, tais projetos não estão sequer no papel.
''Fora a agricultura, este ano ainda não vai ter nada. Tem um pessoal que vai vir aqui fazer uns estudos, antropólogos, sociólogos, gente de marketing. Ver o que é bom pra dar lucro. Aí tem que levar lá para Brasília'', enumera o cacique da reserva, Juscelino Vergílio, para concluir: ''Se fosse fácil, a gente não estava nessa situação.''
O líder afirma que a parcela da indenização depositada em dezembro será investida na agricultura, mais especificamente no plantio de inverno. Segundo ele, a safra de verão ''não deu certo''. ''A gente trabalhava com dinheiro da prefeitura. Para tudo tinha que abrir licitação, atrasava muito a gente. Agora, usando dinheiro nosso mesmo, espero que dê certo'', torce. Os Kaingang deverão adquirir novas máquinas e contarão com apoio de técnicos para escolher as culturas e métodos mais adequados.
Em meados do ano passado, o cacique viajou em companhia de antropólogas e um grupo de lideranças para o Amazonas e o Tocantins, a fim de conhecer experiências de outros povos indígenas com projetos auto-sustentáveis. Surpreso com as diferenças que encontrou em relação à sua própria aldeia, acabou colhendo exemplos do que ''não fazer''.
''Os Waimiri Atroari, do AM, são bem diferentes de nós. Eles não gostam de alimentos dos não-índios, comem animais da mata, vivem todos juntos numa casa. Aqui a gente precisa de roupa, calçado. Eles só usam short e chinelo, não gostam de ir à cidade para comprar essas coisas'', compara. ''Lá eles estão aplicando em saúde e educação. Aqui essas coisas vão bem, e o governo já dá esses recursos.''
Já no Tocantins, onde visitou o povo Xerente, o cacique foi aconselhado a planejar bem o uso do dinheiro. ''Eles tentaram várias coisas que não deram certo. Disseram que só agora, que o programa (também realizado com verba indenizatória) está acabando, estão aprendendo a trabalhar com gado e agricultura'', conta.
Os habitantes da reserva Apucaraninha também já registram pelo menos uma experiência mal-sucedida. No ano passado, eles tentaram reativar um antigo porto de extração de areia, de propriedade de terceiros, à margem do Rio Tibagi. Segundo Vergílio, investiram R$ 20 mil em dragas e na contratação de um funcionário. Acabaram sendo multados no mesmo valor pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e tiveram que abandonar o negócio. ''Parece que eles só olham para coisa pequena. Mas liberam usina hidrelétrica e fazem vista grossa para garimpeiro na Amazônia.''

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